Confrontaram-me com a seguinte interrogação: se colocarmos painéis solares nas coberturas de edificados, vamos aumentar ainda mais a temperatura das cidades? Se vamos substituir as telhas e o betão, com que fechamos, mais frequentemente, o topo dos edifícios, por painéis solares, estaremos a contribuir para intensificar a ilha de calor urbana? Creio que posso responder prontamente: não. Se utilizarmos a tecnologia disponível, até podemos anular, ou reduzir muito, a contribuição térmica dessas coberturas para a ilha de calor urbana.
Há três tipos de painéis solares: os térmicos, os fotovoltaicos e, há menos tempo, os híbridos. Os painéis solares térmicos permitem aquecer água e responder a necessidades vitais controladas de acordo com a radiação solar disponível nas coberturas. Os painéis solares fotovoltaicos produzem eletricidade e facultam autoconsumo, venda de excedentes e, por consequência, menor dependência das empresas fornecedoras de energia. Por seu lado, os painéis solares híbridos conjugam os dois efeitos. Utilizam a própria energia absorvida pelas coberturas impedindo que seja reemitida, para as cidades, na banda do infravermelho térmico. E, claro, produzem eletricidade. Como resultado, teremos forte redução (ou anulação) da contribuição das coberturas para o efeito de ilha de calor urbana.
Mesmo assim, sustentam especialistas, a introdução de painéis solares não-híbridos não altera significativamente o albedo (coeficiente de reflexão da radiação solar incidente nas superfícies) em comparação com o dos materiais que constituem as coberturas clássicas. Se a substituição conjugar painéis solares térmicos com fotovoltaicos, conseguimos mesmo diminuir a contribuição que as superfícies clássicas introduzem nas cidades ao reemitirem, na banda do infravermelho, calor absorvido.
As consequências do aumento do efeito de ilha de calor urbana são muito mal comunicadas e piormente (posso dizer?) combatidas; para mais, no quadro atual de aquecimento climático global. A fatídica onda de calor entre final de julho e meados de agosto de 2003, retirou da vida 1953 pessoas e, desde então, as ondas de calor tornaram-se muito numerosas - apenas conhecíamos as de junho de 1981 (1906 óbitos excedentários) e de julho de 1991 (1002). Nos 23 anos que decorreram entre 2003 e 2025, houve verões com ondas de calor em 12 que provocaram excedentes de mortalidade. Mas, em 2003, 2006, 2010, 2013, 2015, 2017, 2022 e 2025, ultrapassaram o nível de efeitos catastróficos: excederam mil mortos. Já nem falo nos efeitos na morbilidade que se repercutem em diminuição da esperança de vida de pessoas expostas às situações de calor extremo.
Apesar de a catástrofe de 2017 ter sido reconhecida pelos poderes políticos como resultado do aquecimento global, só os incêndios rurais os têm preocupado. As ondas de calor que catastroficamente os ativam continuam sem organização de proteção civil para respostas preventivas e imediatas. Isto passa-se 34 anos depois de a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas ter sido aprovada e depois de avisos consecutivos formulados por diversos setores científicos. Contra a ciência, ver para crer é uma doença que envenena o presente e o presente do futuro.
Para uma próxima, fica a focagem deste “Cata-Ventos” para as ilhas de calor geradas (se não conseguirmos impedi-las) pelos megaparques fotovoltaicos da Beira e “Sophia”. Sophia, ai Sophia de Mello Breyner, teu nome de poesia abusado para arrasar a poesia!