“O que um habitante de Gaza deve fazer durante um ataque aéreo israelita. Apaga as luzes em todas as divisões/ senta-te no corredor interior da casa/ longe das janelas/ fica longe do fogão/ para de pensar em fazer chá preto,/ tem uma garrafa de água por perto/ suficientemente grande para arrefecer/ o medo das crianças/ agarra numa mochila de crianças e outras tralhas,/ brinquedos pequenos e o dinheiro que houver/ e os documentos de identificação/ e fotografias dos avós, das tias ou dos tios/ falecidos/ e o convite de casamento dos avós conservado/ durante muito tempo/ e se fores agricultor, coloca algumas sementes/ de morango/ num bolso/ e alguma de terra do/ vaso da varanda no outro/ e aguenta firme/ no número que estava/ no bolo/ do último aniversário./ Posso arrancar a terra de mim como uma rolha?” [Mosab Abu Toha]
“Neste escuro e sinuoso abrigo. Não sei se voltarei viva para algum lugar de escombros/ que o estrépito das bombas e o zunir dos mísseis/ anunciam ou se acordarei num campo de refugiados/ entre tendas choros e fedor de excrementos. Às vezes/ numa pequena pausa do ribombar monstruoso e longínquo/ neste escuro e sinuoso abrigo, invento uma forma/ de não enlouquecer, algo que ninguém/ pode arrancar da minha memória, o aroma/ do mansaf cozinhado pela minha mãe, esse glorioso/ arroz de cordeiro assado de que o profeta/ não desdenharia. E vou cismando na impossível partilha desta terra/ com demasiadas pátrias demasiados deuses, demasiados clamores/ de vingança na anulação do outro. Está/ escuro. Quero sair daqui. Quero um país.” [Inês Lourenço]
“Tu e eu pedimos satisfações à história/ à bandeira que perdeu sua virilidade/ quem somos?/ deixa que a pressa das ruas beba na indignidade/ de nosso estandarte assassinado/ por que não te rebelas/ quando ela estende seus braços aos outros e seus seios/ temos suportado a tristeza durante anos/ e o sol não tem nascido/ a tristeza é um fogo que o tempo consome/ e que o vento desperta/ e como domarás o vento sem armas/ exceto a coalizão de vento e fogo numa pátria violada.” [Mahmoud Darwich]
“Esta terra que suga a pele dos mártires promete para o verão trigo/ e astros venera-a/ somos em suas entranhas como o sol e a água/ e nos seus flancos como um bolsão doloroso de resistência/ as lágrimas estão em minha garganta/ e o fogo em meus olhos/ libertei-me das fraquezas na porta do ano/ todos os que morreram e os que morrerão no umbral das manhãs/ apertam-me apertam-me/ fizeram de mim um explosivo./ Ó minha dor orgulhosa/ minha pátria não é mala/ nem eu sou viajante/ estou louco... e esta terra é minha paixão./ Cresci nas feridas/ e não disse a minha mãe como se transforma pela noite em campo de refugiados/ não extraviei minhas fontes, meu endereço, meu nome/ por isso descobri nesses nomes um milhão de estrelas”. [Mahmoud Darwich]
“Exceção. Todos chegam/ Rio e comboio/ Som e barco/ Luz e cartas/ Os telegramas de pêsames/ Os convites para jantar/ A mala diplomática/ A nave espacial/ Todos chegam, todos exceto os meus passos em direção ao meu próprio país.” [Murid Barghuty]
“Não há homem livre com quem eu não tenha parentesco,/ e não há uma única árvore ou nuvem/ à qual eu não seja devedor.” [Mahmoud Darwich]
“Raros são os poetas que nascem poeticamente duma só vez. Pela minha parte,/ nasci gradualmente e por contrações espaçadas/ e continuo a aprender a marcha difícil/ no longo caminho do poema/ que ainda não escrevi.” [Mahmoud Darwich]