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Cata ventos: Pelos cantos do futebol

Costa Alves - 31/10/2018 - 10:17

Sei que o futebol já não é o que era. A Meteorologia, a Medicina, etc, etc, o mundo e a vida também já não são o que eram. Branco é, galinha o põe. Não gosto desta conversa, embora carregue a densidade do passado em articulação com este presente que me dói ou alegra, como o presente no passado, então, me doía ou alegrava. Não vá o leitor julgar que puxo esta conversa sobre o futebolês por mero impulso revivalista.
Com tanta oferta televisiva de desperdícios sobre o mundo do futebol, até julgo que estará já familiarizado e pronto a aceitar esta minha incursão. Se tiver êxito, talvez consiga uma “cabazada” e receba dos “adeptos” as ovações devidas a quem fez uma “exibição” de fazer brilhar os anéis de todas as “bancadas”.
Ora atente na palavra “anjinho”. Esqueça outros entendimentos e aplique-o ao futebol. E, por favor, diga ao treinador (chamam-lhe “mister”, brrr!) que pense duas vezes antes de o escalar para “o retângulo”. “É mesmo um anjinho”: com a baliza aberta, inclinou o corpo para trás e atirou para o céu da bancada. É uma “anedota” que concede “abébias” ao adversário. Quando recebe um “passe de bandeja”, desperdiça-o atirando “o esférico” para “canto”. É como os Governos que jogam contra nós. 
Como não podia deixar de ser, o léxico do futebol é rico em imagens e metáforas inspiradas na guerra. Há “pontas-de-lança”, “armas secretas”, “balázios”, “bojardas”, “tiros à figura” e ao “alvo”. Mas, não julgue que o pior se passa nas “quatro linhas” e o melhor na bancada. Se quiser ver tochas, isqueiros e, até, telefones móveis a voar, pode vê-los a ser atirados aos árbitros e aos jogadores adversários. Esqueça os que o Bruno de Carvalho diz que foram dirigidos ao Rui Patrício como podiam ter como alvo outro guarda-redes do clube em que ditadoriava - deixe que diga assim. 
Guarda-redes? No Brasil chamam-lhe “goleiro” e é difícil convencer os meus netos, que vivem nesse país-irmão, de que o guarda-redes não está lá para encher a baliza com golos. Nem para sofrer os calafrios de o seu “golpe-de-vista” se deparar com “a bola a beijar o poste”. Para quem julga que a atividade é “musculada” (como agora dizem na Proteção Civil) fica espantado com os beijos e abraços transpirados pelos relatores radiofónicos. E ficará ainda mais, quando brotarem gritos de “Fora o árbitro!” Aí socorro-me do poema “Ode ao Futebol”, de Tóssan: “E a multidão/ lá do peão/ gritava/ berrava/ gesticulava/ e a bola coitada/ rolava no verde/ rolava no pé/ de cabeça em cabeça (...) zumbindo no ar/ como um bezoiro/ toda redonda/ toda bonita/ vestida de coiro”. Gosto de futebol; não da indústria para que evoluiu. Gosto da geometria de certos “passes”. A nossa língua atribui-lhe múltiplos sentidos, mas atente num “passe açucarado”. Não me diga que prefere um “passe à queima”.
Também gosto da beleza da expressão “carregador de piano”. Vem do tempo em que havia excelente jornalismo desportivo. Era analítico e culto e, num país com tão baixa literacia, toda a povoadíssima arquibancada o lia e ganhava palavras e ideias. Nunca viu ninguém a carregar um piano entre as “quatro linhas”? Fica subentendido que transporta o instrumental para que o recital possa existir, mal apareçam os solistas, se existirem, claro está. Agora entram como carregadores de dinheiro.
É uma pena que nas arquibancadas e nas direções dos clubes não haja carregadores de piano nem solistas, mas claques rebarbativas com fervor inquisitorial, ódio na lapela e armas nas mãos.
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