No final de agosto, um jornalista perguntava-me se não haveria excedente de óbitos gerado pelo excesso de calor. Respondi com o que a ciência e a experiência têm como determinado.
Uma onda de calor de grande duração e intensidade provoca duas frentes de calamidade, uma na floresta, outra na saúde humana (e não só). Como é habitual, a atenção da Comunicação Social fixa-se nos fogos e considera inexistentes, porque (tele)invisíveis os impactos na saúde. É uma inversão dos critérios de proteção civil que estabelecem como primeira prioridade a defesa da vida humana.
E o meu interlocutor insistia. – “Então, o que vem dizendo desde a tragédia do verão de 2003 não se aplica a este verão?” – “Aplica”, retorqui, “mas há paredes que, por enquanto, são muros intransponíveis.” Inusitadamente, em julho, a Direção-Geral da Saúde (DGS) congratulava-se com a falta de impactos da onda de calor em curso, na altura. Alegava, até, uma diminuição do número de óbitos.
Confesso que admiti, caso os resultados fossem esses, ser necessário rever o que sabemos sobre a relação entre exposição ao calor extremo e efeitos na saúde, nomeadamente no aumento da morbilidade e na criação de excedentes de mortalidade. Ciência é isso. Se não traduzir o real, terá de administrar mais ciência no que sabe e no que erra.
Procurei mas não encontrei os dados referentes ao número de óbitos ocorridos em julho. Portanto, não obtive dados do real que pudessem comprovar a afirmação do mais alto dirigente da DGS.
Mas, a conversa muda quanto ao que aconteceu em agosto, um mês ainda mais insuportavelmente quente do que julho. Em 5 de setembro, já no mês em que começa o outono, mas ainda mergulhados numa onda de calor muito extensa e intensa, a Comunicação Social dá conta de algumas avaliações com origem na DGS. Confusas, diga-se desde já, e a confusão na sua transmissão terá origem na própria incapacidade jornalística de apreensão de conteúdos técnicos e/ou na falta de clareza de quem os emitiu.
Vejamos o (demasiado) pouco que pude apurar. Em agosto, verificou-se (cito) “um acréscimo de 39 mortes face à média verificada durante o mês, que passou de uma média diária de 268 óbitos para os 307”. Apesar da confusão, tal só pode significar um acréscimo de 1209 óbitos ao valor normal de óbitos em agosto – mais 39/dia. E, como não há outras ocorrências com consequências catastróficas, deveremos atribuí-las a causas relacionadas com o excesso de calor. Quero ser prudente nesta avaliação e esperar pela publicação do Instituto Ricardo Jorge com os dados finais estruturados.
No entanto, continuo com mais esta citação: “entre 8 e 10 de agosto, ocorreram mais 145 óbitos do que o valor normal.” O leitor imagina (e tem experiência para mais do que imaginar) como reagiria a Comunicação Social e, por consequência, como reagiríamos nós, se um fogo florestal tivesse tirado a vida a 145 pessoas em 3 dias. Então e não reagimos a uma catástrofe que retira prematuramente da vida 145 pessoas em 3 dias? E não reagimos a uma catástrofe que retira prematuramente da vida 1209 pessoas em 31 dias? Não. São catástrofes que a Comunicação Social e, sobretudo, os governos silenciam. Em cada ano de 2003, 2006, 2009, 2010 e 2013, morreram mais de 1000 pessoas e o silêncio aconteceu.
É um mistério (não apenas português) que tento decifrar há muitos anos. Sei o que se passa em Espanha, França, Itália, Alemanha, Reino Unido, EUA e sei que é civilizacional.