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Cata-Ventos: Redundâncias

Costa Alves - 01/09/2016 - 12:52

Redundância é encarar “de frente” o que, por definição, não pode ser encarado de outro ângulo. Tem que ser cara a cara. Talvez convenha clarificar o que fazemos com as redundâncias, pois o país não tem por norma enfrentar o que tem de enfrentar. Ou afrontar o que tem de afrontar. Também temos contas a ajustar com os frente a frente, já que não falamos olhos nos olhos nem connosco próprios, quanto mais com os problemas.

Problemas? Seria quase ocioso recordar este agosto que teve tanto que se lhe diga. A começar pelos incêndios florestais. Deambularam pelas florestas como quiseram, sem encontrarmos força e forças para muito mais do que defender pessoas e edifícios. As repetitivas imagens televisivas de tantos anos deste espetáculo de horror não disfarçam a cansativa demonstração do que não tem sido feito.

Onde está o cadastro florestal? E a reconversão e reordenamento das espécies mantêm-se apenas como palavras? A floresta entra pelas aldeias e até pela cidade do Funchal? Eucaliptalizar e mais eucaliptalizar, é? Onde está a aplicação das tantas leis escritas para nada? E as campanhas pela diminuição das ignições? As respostas a estas interrogações pertencem a uma esfera infra ou sobre-humana que o poder político não tem interesse em encarar.

Encarar “de frente”, repito, por amor à redundância. E não para o lado, para cima ou para baixo com disfarces retóricos que desviam as atenções. Chegámos a um ponto em que só a força organizada das convicções cívicas poderá obrigar os governantes a uma intervenção planeada com olhos de futuro. Mas, falta ao país ter força interior e demonstrar querer exercê-la.

Posso enganar-me e seria bom que os propósitos anunciados pelo atual governo contrariassem a fatalidade de, em dezenas de anos, nenhum os ter concretizado. A surpresa é sempre inesperada mas, diz ainda a redundância, há surpresas inesperadas.

Continuando a recordar o que se falou e não falou neste agosto que ontem se findou, registo, com um grande sublinhado, o que se calou: os ditos “Papéis do Panamá”. Nem um pio. Despejaram-nos no Canal ou transitaram para outros alçapões e nós nem vê-los.

Jornais e jornalistas de investigação prometeram com insistente e aparente devoção: tudo cá fora, doa a quem doer! Falaram de deontologia, de compromisso com a verdade e passaram por quase heróis da incorruptibilidade. Enfim, muita pompa na oratória de circunstância, vemos agora. Num dado momento, calaram-se, como se obedecessem a uma voz de comando, e os “Papéis” terão sido queimados ou levantado voo para cofres mais seguros.

Também quanto aos infernos que os ditos paraísos fiscais fabricam, me socorro das redundâncias. Com um sorriso nos lábios. Nos lábios? Onde é que havia de ser? É que também há sorrisos num olhar, num gesto, o mar também sorri e até uma árvore, mas isso são territórios inacessíveis aos jogos redundantes dos adoradores do deus dinheiro. São sorrisos da Poesia e defendem-nos da loucura.

Iniciativa “Tejo Seguro”. Se o leitor não achar mal, deixe-me aproveitar a oportunidade para o convidar a entrar na casa desta iniciativa. Pode fazê-lo até 23 de setembro. Em causa, a aquisição de uma estação de medição da radioatividade atmosférica em Segura, a aldeia portuguesa mais próxima da central nuclear de Almaraz. Trata-se de uma iniciativa cívica que ousa fazer o que o Estado não faz com a sua rede de estações: colocar os dados à disposição do país. Isto não é assunto, apenas, de autoridades que (quantas vezes?) não têm autoridade.

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