Pelo menos desde a Conferência do Rio, realizada em 1992, que damos como adquirido cientificamente o mecanismo principal desencadeante do aquecimento global. Ou seja, o aumento sempre em crescendo das emissões antropogénicas de gases com efeito atmosférico de estufa. Esse mecanismo acentuou-se com a recuperação económica posterior à Segunda Guerra Mundial. O aumento das emissões gera aquecimento que, por efeito de retroação, produz mais aquecimento. Entre outras causas, devido, sobretudo, à diminuição da área coberta por água no estado sólido – a criosfera é um forte refletor da radiação solar nela incidente. No estado líquido, a água é um forte absorvente e armazena-a.
O mecanismo físico de retroação é transponível para a profunda mudança que conduziu ao despovoamento da maior parte do nosso território. Despovoamento gera mais despovoamento numa lógica semelhante à do aquecimento global provocando concentrações de pessoas e atividades sempre crescentes nos locais recetores e gerando neles, em contrapartida, irracionalidades nas formas de estar, produzir e consumir.
Só temos uma saída: uma estratégia de toda a sociedade para percorrer um caminho repovoador que segregue equilíbrio e coesão para o desenvolvimento do país como um todo. Um movimento social ao inverso que origine reativação de atividades antigas com metodologias novas, criação de novas atividades, inversão do processo de diminuição da população nas pequenas e médias cidades, apoio a aldeias que podem sobreviver e voltar a ganhar vida própria. Em suma, reordenamento do território e das suas funções. Este problema, tendo efeitos severos no todo nacional, torna-se crítico nas zonas onde estão os reservatórios de água, a agricultura, a pecuária, a floresta.
E esta mudança terá de ser equacionada numa fase, como esta, de transição para outra configuração climática que comporta riscos novos e novas vulnerabilidades. Teremos, então, de equacionar a evolução da nossa sociedade e do que fazemos no território face aos condicionamentos impostos por anomalias do comportamento da atmosfera de tipo novo.
Já perdemos trinta anos de intervenção coordenada face ao aquecimento global e tudo indica que continuaremos a perder muitos mais. E perdemos outros tantos, ou mais, para inverter o movimento de despovoamento do Interior. Diz o Senhor de Lapalice que, se não tivéssemos perdido estes trinta anos, não estaríamos confrontados com a crise global do funcionamento atual da atmosfera nem com o desordenamento do território. E bastou uma guerra regional com turbulências geoestratégicas para inverter o sentido de algumas das tímidas medidas desigualmente assumidas como de transição energética.
É um enormíssimo problema que só pode ser resolvido com políticas de fundo em todas as escalas, local, regional e nacional, através da inversão drástica das emissões e da adaptação a fenómenos com novas características e que geram riscos novos e novas vulnerabilidades. Mas só possui verdadeira resolução ao nível global alterando a nossa forma de estar, produzir e consumir no planeta, nossa casa comum.
Os efeitos das alterações climáticas obrigar-nos-ão a investir muitos recursos nas áreas metropolitanas e nos povoamentos e sistemas costeiros. Restará, apenas, uma pequena parte dos recursos para vencer o despovoamento e desordenamento do território no Interior. Estamos condenados a ter de fazer os dois trabalhos em simultâneo, mas a interioridade continua a ser uma grande inferioridade.
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