O 25 de Abril foi ontem. Quero invocá-lo e falar dele, antes que o ano do cinquentenário venha a terminar no próximo dia 24 de abril. Não teve realizações nem ações celebrativas à altura do que fez e deu ao país, mas os tempos não são nada favoráveis. Lembra-o Artur Ferreira Coimbra num poema-carta aos netos e publicado na antologia “São Cravos”, organizada por Luís Aguiar e editada pela Editora Labirinto. Uma antologia com cem poemas de outros tantos autores a que vou buscar extratos.
Escreve Artur Ferreira Coimbra: “Vós não sabeis o que era o amordaçado silêncio mármore / As botas cardadas agredindo a noite em clamores de cárcere” anunciando que “há na clara madrugada que chamamos Abril um fulgor de luz / Que tudo mudou, derramado pelas mãos mais abertas às mãos”.
Havia a guerra, “A guerra, a guerra, a gula-agitação, (…) essa raiz da mentira / tumulto enfermidade esprança podre” (António Salvado). “Era necessário preparar a fuga / para longe para norte / onde era possível respirar a juventude”. (Manuel Silva Terra). “E todos tinham um abismo, um coração frágil nas mãos. / a escuridão subentendida em todas as palavras / a censura a crescer nos bolsos vazios, / como se fosse uma cicatriz perpetuada em todos os rios” (Luís Aguiar).
Era “um país sem casa de palavras / um país de hora anoitecer melancolia / ou raiva surda de fruta magoada, / no prato esvaziado de palavras” (Rosa Alice Branco).
“À segunda tentativa, empunhando as armas da razão, os capitães abriram aquela porta do fim do corredor. A princípio não se escutava mais do que a água do passado a correr, depois tentámos reconhecer um país estranho”. E “um capitão de bravura, que cultivava cravos vermelhos e sonhos, apeou os sacerdotes do medo e da maldade” (José Viale Moutinho).
“Revolução; / fábula que a barbárie não soube expatriar” (Alberto Pereira), “uma Pátria de pensamentos soltos, rios a correr” (Analita Santos), “para que cada frase sensível desta novel criação / não se corrompa como pura ideia em lugar nenhum / mas encaixe como acontecimento duradouro e concreto / na mobília desarrumada de um mundo em construção” (Porfírio Silva).
“Nenhum profeta anunciou / mas os homens iam urdindo uma teia no mais secretíssimo silêncio / Era o sagrado momento do nosso ritual. (…) “Eram de Abril os nomes portugueses que enchiam as cidades / e até nos mais longínquos cerros eram de Abril os ventos” (Teresa Alvarez).
O 25 de Abril foi ontem; faz 50 anos este ano. Foi tão breve como o livro que acabei de ler. E tão longo no infinito de cada segundo. O quente de vozes uníssonas tinha acabado de chegar e tocava em pomares interditos. Criou um vislumbre de inteiro, duradouro, íntegro. Fico com “esta delicada miragem / frágil / pequenina / talvez insignificante / mas que gula alguma me conseguirá roubar” (Victor Oliveira Mateus). “Delicada miragem” num agora em que o ar respira pouco e as ruas não nos querem, em que as árvores não estão acesas, os barcos desertaram e os vírus entraram em quase todos os pomares. “Ai flores de abril / nas nossas mãos vos guardamos / e noutras mãos vos matam” (José Dias Pires).
“O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo” (Sophia de Mello Breyner) já não é novo, bem sei. No entanto, ainda tem cheiros, sabores, perfumes, água, vinho, alimento. Ainda tem mãos que afagam ninhos. Deu o que deu ao infinito que desejou, mas ainda quero plantar nos seus genuínos equinócios.