Anda por aí mais uma expressão que tem que se lhe diga: “Os Frugais”. De vez em quando, somos assaltados por bizarrias da política e da comunicação social e (que remédio!) temos de as aturar. Circulamos no submundo das suas oratórias e, até que o modismo passe, não nos doa a cabeça.
Vejamos. Frugal é quem come pouco ou com moderação. Também se pode aplicar a pessoas simples e modestas com comportamentos comedidos, sóbrios, temperados. Gosto de frugalidade. Como me desgostam os opostos: comilão, sôfrego, voraz, glutão, destemperado, estroina e, claro, profissionais da vanglória e da adulação. E ainda mais me custa suportar quem, fazendo-se passar por frugal, pratica o contrário.
É o caso de alguns países da União Europeia, capitaneados pela Holanda, que são definidos como frugais. Separam as águas dos vinhos e todos participam em jogos de palavras que animam o espetáculo da desunião e desentendimento com sessões quase contínuas em tempos de grande crise.
Lembram-se de que, já lá vão uns anos, um ministro holandês alargou-se na sua apreciação aos comportamentos dos países do Sul asseverando que gastam tudo em copos e mulheres? Realmente, um governante de um país tão cervejeiro e que exibe mulheres em montras, como se estivesse na China a escolher peixe para ser cozinhado, enfim, não pode pretender dar lições sem que lhes caiam no rosto.
Recentemente, o ministro das Finanças holandês foi tão agressivo com Espanha, quanto ao impacto da Covid, que levou o primeiro-ministro português a caraterizar as suas afirmações como repugnantes, recebendo bancadas de reconhecimento de “nuestros hermanos”. Como não terá pensado nos impactos da epidemia no seu país das tulipas, disse o que disse em vez de fechar o bico.
Gostaria de passar por cima destas querelas, mas a designação de frugal ficou-me atravessada. Como sabemos, a Holanda (e não só) é uma espécie de paraíso fiscal dentro da União Europeia, recolhendo milhares de milhões de euros, por ano, em impostos que deveriam ser pagos noutras jurisdições fiscais. Como sabemos, há empresas que aproveitam o regime fiscal holandês para aí instalarem as suas sedes sociais e, desse modo, baixarem os valores das suas contribuições por atividades desenvolvidas noutros países, entre eles o nosso.
Portugal perde entre centenas e milhares de milhões de euros para a Holanda e estima-se que esse país possa ganhar 26 mil milhões de euros anualmente, valor que os estudos realizados afirmam poder estar subestimado.
A pretensa frugalidade holandesa chega ao ponto de querer impor, na atual fase de negociações na União Europeia, uma ainda maior desregulação laboral nos países do Sul, maior participação de grupos privados nos sistemas de pensões e poder de veto na atribuição de fundos. Frugalidade?
Na verdade, segundo estimativas da Comissão Europeia, apesar da sua modesta dimensão, a Holanda é o terceiro país, entre os 27, que mais beneficia, em termos brutos, com o mercado único. Anualmente, ganha, em média, 84 mil milhões de euros, valor cerca de doze vezes superior à contribuição anual holandesa para o orçamento da União Europeia. Fica apenas atrás dos ganhos das duas maiores economias: Alemanha (208 mil milhões de euros) e França (124,4 mil milhões).
O mundo tem a casa muito mal arrumada; todos o sabemos. Do alto do seu poder global, o deus-dinheiro determina as coordenadas das nossas vidas e, por sua conta, as políticas europeias inventam cada uma…
Frugais? Essa agora!