“Setembro é o maio do outono” (reza o ditado popular) devido à posição relativa que cada um dos meses ocupa no corpo das estações e também às trovoadas que deflagram mais frequentemente na segunda quinzena de maio e na primeira de setembro assinalando, respetivamente, a entrada e a saída da depressão térmica ibérica, ou seja, a abertura e fecho do verão climatológico.
Ainda segundo o adagiário, setembro, nono mês do ano e sétimo do calendário juliano, é de extremos: “ou seca as fontes ou leva açudes e pontes”. O leitor retirará do baú da sua (sempre curta) memória exemplos de estiagens prolongando-se algumas vezes outubro dentro. “Em agosto secam os montes, em setembro as fontes e em outubro seca tudo” ou, como quem diz em aplicação agrícola: “agosto madura, setembro derruba e outubro seca tudo”. Há registo de anos em que várias serras continuavam a arder com grande velocidade até que os primeiros sistemas frontais vieram baixar a temperatura, aumentar a humidade e molhar o solo.
Quando muito quente e seco e, com tanto combustível disponível (mato, manta morta, árvores), aí estão, incontornáveis, também por vezes em setembro, os fogos na floresta. Uma consequência da rápida mudança social que desordenou a relação com a floresta e atingiu frontalmente o habitat rural.
“Com o fogo não se brinca”. E uma das consequências dos incêndios florestais reside na alteração do revestimento do solo com aumento da erosão e da velocidade de escoamento pluvial. “Em setembro ardem os montes e secam as fontes” e então, “serra queimada, terra alagada”. E, como devíamos estar fartos de saber, “o fogo e a água são maus amos e bons criados”, “de pequena fagulha, grande labareda” e “lume ao pé da estopa, vem o diabo e sopra”. Como pergunta um dos poemas de Carlos de Oliveira, "que véu de fogo nos teus ombros de fogo arde?"
Mas setembro conhece o declínio lento da situação que origina a depressão de origem térmica do verão ibérico e aí estão as trovoadas e os aguaceiros muito intensos, com os tais problemas no interior do território, a que se juntam os que nasceram nas áreas metropolitanas onde nos concentrámos e onde uma determinada quantidade de chuva provoca mais problemas, hoje, do que o triplo há 40 anos.
E há um outro setembro particularmente assinalado pelo adagiário: “Quando não chove depois de S. Mateus, é por milagre de Deus”. O dia 21, dia equinocial e do santo, sendo de viragem no ciclo e nos rituais das estações, é-o também para o adagiário: “Águas verdadeiras, por S. Mateus as primeiras”; as primeiras, certas, pausadas, úteis. Os sistemas frontais que separam ar tropical de ar polar evoluem já por latitudes mais baixas do que nos meses anteriores e começam a atravessar o território. Ou seja, “pelo S. Mateus, pega nos bois e lavra com Deus”.
Como se depreende, é um mês de grande variabilidade. “Em setembro, planta, colhe e cava, que é mês para tudo”, mas “se for molhado, figo estragado”. Por isso, “cara de poucos amigos e manhã de figos. Figos que vão desaparecendo do mapa da fruticultura portuguesa engolidos pela voragem da mudança dos últimos 60 anos e que, no escrever da poesia de Leonel Neves, "embala(va) a fome aos donos e a todos,/ - pássaros, vagabundos e meninos". Enfim, no nosso olhar de urbanos, setembro é, como lemos na poesia de Ruy Belo, "um tempo que em breve roubaria/ ao ruidoso convívio do Verão".
Até hoje, este setembro não é um bom exemplo do padrão climatológico registado.