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Cata Ventos: Shutdown - Governo fechado por um muro

Costa Alves - 14/03/2019 - 9:34

Então não querem ver que o governo dos Estados Unidos da América encerrou portas, durante um mês, por causa de um muro que o presidente Trump quer construir ao longo da fronteira com o México? E que fez disso um cisma que se transformou numa tempestade política e social a que chamam “shutdown”? 
“Shutdown”? Hum! Coisas da língua inglesa e de um colonialismo idiomático que atravessa todas as fronteiras. A palavra, diz o dicionário, pode significar desligado, encerrado, fechado, parado, desativado, paralisado, encarcerado, abatido, reduzido, caído. Mas não designa o quê e passámos a interiorizá-lo sem mais, por convenção.  Portanto, quando o governo norte-americano se declara em modo de “shutdown”, nem é preciso perguntar que “shutdown” é esse. É demasiada a minha estranheza (ou ignorância) face à insuperável omnipotência daquele país para (se) comunicar sem necessidade de ser traduzido.
Já não basta temer as tempestades que a atmosfera produz, transformada na sua composição, como tem sido, pelo aumento das emissões de gases com efeito de estufa. Por mais que nos custe e à pátria do tio Sam, mas também de Whitman, Edgar Poe, Hemingway, Pollock, Orson Welles, Martin Luther King, etc, esse tal presidente Trump acaba de dar mais uma ajuda ao aquecimento global. Há um mês, a sua proverbial, mas sempre atrevida ignorância, embrulhou a descida temporária em latitude do vórtice polar num dos vírus “twittais” que escrevinha nas paredes sociais para reagir a quem contesta os interesses dos combustíveis fósseis. 
No entanto, quando vêm a chuva e o vento, apesar de alguns terem de fechar portas, ninguém aproveita para fechar os serviços públicos e mandar descansar, ainda por cima sem vencimento, 800 mil funcionários do Estado. Parques nacionais, museus, bibliotecas, setores da NASA, aeroportos, serviços de vacinação, áreas da justiça, atividades de várias agências de regulação, ficaram a funcionar a meio gás. 
Sempre ouvi dizer que as empresas não podem, por discricionária iniciativa, declarar “lock-out” (outra que não podemos ter em português) e fechar portas, como quem está em greve. Mas, nos EUA, o Governo pode fazê-lo e manteve funcionários seus em casa mais de um mês. A grande democracia norte-americana ainda tem leis e práticas de escravatura que são estranhas, até ao nosso portuguesíssimo olhar - a nós que até voltámos a ter leis e práticas laborais do arco da velha que vivia no século XIX. 
Foi a 18ª operação de encerramento de atividades governamentais na sua história. Confesso que nunca conhecerei verdadeiramente este país. No pior, no assim-assim e no melhor. E, como é normal a quem está tão distante, o pior está sempre à frente dos olhos. Desde os meus anos de 1960 que é assim; a guerra do Vietname que o diga. E - puxo a brasa à minha sardinha - o pior dos atuais muitos piores é a sua política anticlimática. 
Mas, voltemos ao muro que o tal presidente não desiste de querer implantar. Um muro é o que é. E, eletrificado para fazer fronteira entre dois países, mais adensa a sua carga negativa; física e simbólica. Pensava que, depois do muro de Berlim, ninguém teria cara para se meter nessas embrulhadas de murar o mundo desta maneira. Mas a coisa está a voltar com toda a força. O muro de Jerusalém e da Cisjordânia tem 780 quilómetros e a Hungria está a construir o seu segundo. Assim vai o mundo. O dinheiro circula sem muros e dorme em “paraísos fiscais”. As pessoas, não.

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