Historicamente, o funcionamento da atmosfera gera fenómenos extremos. Bem o sabemos e, nas últimas décadas, esses fenómenos têm ocorrido com uma frequência e intensidade que os diferenciam do quadro climático anterior. Temos como assente que o aquecimento global gerado pelo aumento da concentração de gases com efeito atmosférico de estufa (GEE) produz efeitos em diversas escalas espaciais e temporais. Efeitos com causalidades e interações complexas que necessitam de muita investigação.
Há duas semanas, falava-se muito da migração do vórtice polar para latitudes mais a sul, particularmente do frio extremo e da grande quantidade de neve que ocorriam nos EUA. Era encarado, e comunicacionalmente tratado, como se de um fenómeno novo se tratasse. No entanto, trata-se de um fenómeno recorrente da circulação do fluido atmosférico.
Digamos que, em resposta à distribuição do calor entre a fonte quente intertropical e as fontes frias polares, estabelece-se um anel de elevada variação da temperatura na alta troposfera que produz uma corrente de jato com vento muito forte à volta das zonas polares. Comparativamente com o que evolui em torno da Antártida, o vórtice polar do Hemisfério Norte é menos intenso e possui mais oscilações e, com maior frequência, gera meandros que evoluem em latitudes mais baixas.
No entanto, provavelmente como resposta às alterações que resultaram na diminuição da superfície gelada do oceano Ártico e que origina ainda mais aquecimento, a situação do vórtice polar do Hemisfério Norte está mais instável e tem apresentado alterações nas suas dinâmicas e configurações.
As situações de frio com origem polar são frequentes no inverno na América do Norte, mas a grande intensidade deste episódio nos EUA remete para a possibilidade de o forte e rápido aquecimento da região ártica estar na origem da atividade tão extrema que apresentou. Mas, só o aprofundamento da investigação poderá fornecer-nos a leitura científica necessária a uma melhor compreensão do que está a passar-se e de como evoluirá nos próximos tempos.
Por seu lado, o calor extremo deste verão na Austrália não é novidade desde há anos e tem como paralelo as situações catastróficas que o nosso país bem conhece.
Na verdade, fixámos um quadro de previsibilidade de fenómenos extremos mais extremos, mas não temos a compreensão científica das alterações físicas que originam comportamentos diferentes na interação oceano-atmosfera e a sua magnitude. E temos muitas interrogações sobre os riscos e vulnerabilidades de tipo novo a que estamos sujeitos.
Os problemas estão identificados e é de esperar que se agravem. Uns anos com mais intensidade, outros com menos. A causa que os desencadeia continua presente com os aumentos anuais das emissões de GEE. Mas, não conseguimos definir previamente onde, quando e como acontecem as situações catastróficas. Estamos a ser surpreendidos pela ação dos novos riscos que agem sobre novas vulnerabilidades. Se estávamos mal adaptados a um clima mais ou menos conhecido, enfrentamos os novos riscos com a visão muito diminuída perante o desconhecido.
Não estamos numa situação de não-retorno à configuração climática mais equilibrada que tínhamos. Mas, a continuarmos com este nível de emissões de GEE, em 15-20 anos atingimos o nível crítico da concentração de GEE (450 partes por milhão) a que corresponde o aumento da temperatura média global de 2 ºC, relativamente ao referencial de início da Revolução Industrial.