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Cata-ventos: Sobre Underdog e outros barbarismos

Costa Alves - 18/07/2019 - 9:16

Isto de, por dá cá aquela palha, quase palavra-sim, palavra-não, usarmos palavras da língua inglesa parece “viral”, como agora dizem - será que gostam de vírus? Já aconteceu com a francesa, mas aportuguesámos bem com a familiaridade da base latina. Ficaram a boiar alguns élans (elãs) e ateliers (ateliês), mas têm-se resolvido. De resto, cá vamos, com muito petróleo no camião, poucos metros de bicicleta e alguns de trotineta - uma carga de trabalhos com tantos automóveis às costas.
Os efeitos da interferência inglesa no nosso território idiomático são muito complicados. Não tem latim que nos aproxime e a cultura do efémero, que digitalmente se propaga, traz modas difíceis de contrariar. E a televisão faz inimagináveis esforços para enxamear o falar português com gralhares de anglofonia. Quererá mostrar que fala e escreve melhor do que na língua materna? Ou tem pouco português para tão demasiado inglês?
Confesso que me vejo grego (língua que deu tantas palavras e tão nossas que nem damos pela sua origem) com a profusão de vocábulos ingleses. Por exemplo, os terminados em “ing”. “Bullying” (de bully: tirano, brigão, valentão) tem violências que até já se estendem a “cyberbullying”. No entanto, há formas de violência mais antigas que a própria Antiguidade e parece que nasceram agora - exemplo “salting”, quando há perseguição e assédio frequentes. O “scouting” agarrou-se ao futebol e é hoje imprescindível para detetar jogadores que poderão mercadejar milhões. Também já me confrontei com “showcookings” de preparação de alimentos em frente de comensais. Rima com “shoppings”.
Lendo um jornal desportivo, deparei-me com “underdog”. Abaixo de cão? O jornalista convocava a palavra para designar a equipa favorita de alguém na selva do futebol. “Underdog”? Passei a minha estranheza a pessoas mais familiarizadas com o universo anglófono e consegui outro sentido: “underdog” é “diamante em bruto”. E, upa-upa, já é nome de galeria de arte em Lisboa. Aos abaixo de cão - oprimidos, explorados, subservientes, com grande azar, perdedores, inferiores aos demais, pobres diabos, coitados, desfavorecidos - acrescentaram qualidades opostas que, devidamente lapidadas, podem subir a variados pódios. Em alguma coisa serei conservador, pois não me esqueci do brado atormentador que um filme como “Mundo Cão” nos lançou nos anos de 1960. Confesso que me custa contactar com o mundo abaixo de cão como “diamante em bruto”.
Há outro vocábulo que me causa espécie e que a imprensa vem transpirando: “burnout”. À letra virá de “queimar fora”, o que nada diz. Mas, em inglês, também é nome de doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde que define como estado de exaustão e ineficácia profissional. Já que adotámos “stress”, não seria melhor designá-la, em vez de ficarmos “burnoutados”, por stresse profissional?
Outros vocábulos e expressões pastam pelas colinas neocolonizadas da nossa comunicação. Leio: “Sunset Party em Aldeia Ruiva”; “Reunião em formato World Café”; “escola paper free” (a escola não sabe português?). Nem falo dos “play off” (já não botam fora?), “on line”, “time out” ou das “fake news” que até já elegem presidentes. Enfim, de “hacker” todos temos um pouco e, sendo assim, nada é mais fácil (e ignorante) do que piratear na nossa própria língua.
O uso e abuso do inglês dão para tudo e ninguém enfrenta esta desordem que violenta e diminui e corta asas à nossa língua e ao pensamento que podemos criar com ela.

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