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Cata-Ventos: Ter razão antes de tempo

Costa Alves - 06/10/2022 - 9:50

Dizem que não devemos ter razão antes de tempo. Que perdemos razão, se a anteciparmos. Que teremos de a sufocar até que, porventura, ou por ventura, a toalha do tempo da razão nos seja estendida. É quase um paradoxo, mas assim têm rodado as carruagens da História. 
Ainda antes da Conferência do Rio, realizada em 1992, a Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Ambiente traçaram os ditames da ciência contra o incremento das emissões antropogénicas de gases com efeito atmosférico de estufa. Entre os poderes políticos e económicos, uns disseram que sim, mas que também; outros contrataram quem o iria desdizer por conta dos interesses dominantes da exploração dos combustíveis fósseis. E impediram que a razão antes do tempo se impusesse com pouco atraso. 
Já estamos a perder trinta anos e tudo indica que continuaremos a perder muitos mais. Com exceção de alguns casos de patologia, hoje ninguém nega a realidade do aquecimento global e das consequentes alterações climáticas. Diz o Senhor de Lapalice que, se não tivéssemos perdido estes trinta anos, não estaríamos confrontados com a crise global do funcionamento da atmosfera. Bem sei que o “se” não faz História, mas, mesmo assim, ter reconhecida a razão antes de tempo não garante que estejamos a convergir para aplicar os seus ditames. Como temos visto e revisto. E bastou uma guerra regional com turbulências geoestratégicas para inverter o sentido de algumas das tímidas medidas globalmente assumidas como de transição energética.
Contra as crenças dominantes, Alexander Fleming dedicou a sua vida a investigar bolores e, depois de descobrir o antibiótico, a que chamou penicilina, lutou denodadamente, durante mais de uma dezena de anos para que fosse clinicamente adotado. Teve razão antes de tempo e são incontáveis as vidas que podiam ter sido salvas até ser autorizado a ter razão. 
Não teve Copérnico razão antes de tempo? Mais de 50 anos depois da defesa do heliocentrismo, ainda o padre Giordano Bruno era queimado no Campo das Flores, em Roma, por divergências teológicas e também por lhe parecer verdadeiro o que Copérnico tinha deduzido por via matemática. E quantos interrogatórios e pressões de diversa natureza teve Galileu Galilei de suportar para abjurar publicamente das provas, com suporte instrumental, que formulou, confirmou e lecionou para que o futuro soubesse que tinha tido razão antes do tempo de lhe darem razão? Podem pedir perdão pelo mal que lhe e nos fizeram enquanto humanidade, mas não anulam nem apagam o que a história regista como atentado contra a razão. 
As sociedades e as suas direções políticas precisaram de quase trinta anos para confirmarem o que a ciência sustentava sobre o aquecimento global e, ano após ano, ia comprovando em mais largo e profundo. Este desfasamento é intolerável e tem consequências catastróficas. As medidas resultantes do abanão geopolítico que a invasão da Ucrânia ocasionou tornam o reconhecimento atual das alterações climáticas num rotineiro exercício retórico. É previsível que o ritmo dos incrementos das emissões de gases com efeito de estufa aumente ainda mais, agora.
O que devia ser uma inversão de caminhos fica resumido a (desprezados) apelos angustiados de António Guterres, uma encíclica papal a que não ligam, católicos ou não, e às agora muito retraídas movimentações cívicas e de organizações ambientalistas. É preciso ter razão antes de tempo e apressar o seu reconhecimento, mas, por enquanto, as sociedades e o mundo não estão para isso.

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