Previno desde já o leitor de que só estando com a bolha é que poderei abalançar-me a trazer a bolha como tema para aqui. Na verdade, não podia estar de outra maneira senão com a bolha; isto é, com a telha, com os azeites, com a mosca, de candeias às avessas. Como quem diz, estou pelos cabelos e não sei como chegámos a estas expressões para resumir o estado de mau humor em que me (des)encontro aborrecido, zangado, em baixo, com cara de poucos amigos, trancado nos meus botões, enfim, com cara de caso, de mal com alguém, com a vida ou com o mundo. Mas, devo esclarecer, que, tirando o alguém contra o qual nada tenho nem procuro ter, estou de saco cheio com a fase da história da vida e do mundo que nos calhou.
Outra vez com a bolha? pergunta o outro eu que consegue conter-se e manter distanciamentos. Sim, outra vez atolados em trapalhadas, apantanados pela maneira como vão administrando a coisa pública. Coisa, disse? Se calhar é porque a consideram mesmo uma coisa, coisa sua ou coisa sem importância, trocos, alfinetes, gorjetas, conceder e receber favores em roda livre, salvar bancos, bonificar milionariamente quem se ajeita ou rejeita, etc, etc. Nem quero esmiuçar as tantas coisas que me vêm à lembrança, como, apenas para exemplo, a bandeirante empresa que é preciso manter em nome das funções lusíadas que representa e que, afinal, é para o deus dinheiro vir a engolir. Já o sabemos há muito, há proclamações e medidas sobre transparência que são de uma impenetrável opacidade. Ai, ai, democracia! Não percebes que, trabalhando assim, trabalhas contra ti própria? O celerado trumpismo - o geral e o daqui - trepa acelerado.
Bolhas há muitas, realmente. Mais do que chapéus. Há bolhas de sabão que pintam balõezinhos de arcos-íris crepitando sobre o espanto das nossas infantes inocências. Essas são as bolhas de que gosto. Ainda brilham nesta fase de infância avançada em que me vou arranjando. De resto, há bolhas na língua que, mesmo assim, ou por causa disso, não impedem que televisivamente ouçamos tantos maus-tratos de língua e tão más intenções no fazer. E há bolhas nas mãos que vêm do muito laborar e que também nos dão força para empolar e mandar alguém, ou muitos alguéns, a encher-se de borbulhas.
Mas as bolhas que mais me preocupam fiam mais fino. Isto é, têm tal envergadura, têm tantos muros inescaláveis que contra elas apenas podemos vociferar e pouco mais fazer do que deixar andar até que consigamos desadormecer, como fizeram agora os professores.
Por exemplo, como furar a bolha imobiliária? Nem um facalhão lhe pode chegar, quanto mais os alfinetezinhos de vozes resignadas que temos à mão. E as bolhas bancárias? Emprestamos-lhes dinheiro e ainda temos de pagar por cima; depois, enchem-se de riqueza emprestando-o ao juro dos olhos da cara. E mais não digo acerca dessa bolha, pois, como bem sabemos, quando estoira é na nossa cara que vem fazer os estragos. Enfim, estamos vacinados, mas, os Coronas desta vida continuam por aí a infetar a energia do nosso respirar. O pior é que, tal como as dos paraísos fiscais, estas bolhas são criadas numa incubadora do tamanho do planeta e são donas do mundo e dos arredores de cada um de nós. A pobreza, a desigualdade, a precariedade, as guerras, o aquecimento global que o digam.
Como bem sabemos, o pior é quando as bolhas ficam com a bolha. Espirram para todos os lados e o nosso mal viver que se amanhe. Assim acontece neste dia em que me descubro com a bolha e a ponho aqui a vibrar. Peço a complacência do leitor.