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Cataventos Humboldt - Uma ciência das ciências

Costa Alves - 26/01/2023 - 9:43

Um livro de Andrea Wulf - “A Invenção da Natureza”, Círculo dos Leitores, 2022 - veio abrir-me para um conhecimento mais vasto da vida e obra deste gigante da ciência. Da ciência das ciências do conhecimento da vida e do mundo como “um todo vivente” em que biosfera, hidrosfera, atmosfera, litosfera e criosfera estão ligadas formando, como ele escreve, “um tecido intrincado como uma rede”. Uma ciência das ciências que tanta falta faz.
Durante o seu tempo de vida (Berlim, 1769-1859) ligou geografia, botânica, zoologia, geologia, meteorologia, astronomia, vulcanologia, sismologia, como investigador de todas as áreas. Elabora o primeiro traçado das isotérmicas médias do ar junto ao solo, mede sistematicamente a pressão atmosférica e o geomagnetismo nos seus trabalhos de campo, mesmo em caso de crises vulcânicas, e utiliza o cianómetro para avaliar a, como diz, “azulidade do céu”. Escreve a biógrafa que Alexander Von Humboldt “foi o primeiro a compreender o clima como um sistema de complexas correlações” que designou como “perpétuo inter-relacionamento”.
Racionalista e geognóstico, como se designava, seguiu na esteira do iluminismo, mas tudo integrando com base em observação, medição e fixação do conhecimento nas dezenas de livros que publicou. Confidenciou: “Vivo no meio da ciência. O material cresce-me debaixo das mãos” e o escritor americano Ralph Waldo Emerson definiu a sua personalidade científica como alguém “cujos olhos são telescópios e microscópios naturais”.
Começou a atividade científica nos territórios coloniais espanhóis entre Lima e Caracas. Calcorreou-os durante cinco anos, estudando as formas diversas de expressão da vida natural e humana. Viajou para Cuba e México sempre com a mesma metodologia e os mesmos objetivos. E dali para os EUA onde teve longas conversas com Thomas Jefferson, o terceiro presidente do mais recente país independente. Jefferson interessou-se pelas suas investigações e ouviu, contrafeito, as denúncias que Humboldt fazia da colonização espanhola e das práticas de escravatura também existentes nos EUA. Pela primeira vez na história da ciência fala das alterações que, por ação humana irracional (sobretudo a extensa desflorestação) estavam a acontecer às escalas micro e mesoclimáticas.
Volta para a Europa com um manancial de dados que interpreta e publica em vários volumes. A sua escrita manifesta uma base holística pouco comum nos cientistas da época. Goethe, um amigo de toda a vida, confidenciou: “Nunca conheci ninguém que combinasse uma atividade tão deliberadamente focada com uma tal pluralidade de espírito”. Há quem sustente que poderiam ser palavras de Humboldt quando a personagem Fausto afirma: “Quero detetar a força escondida / Que liga o mundo e lhe guia o caminho”.
Conhece Simón Bolívar na altura em que o filho de fazendeiros, natural de Caracas, se divertia na Europa sem saber que fazer na vida. Expõe-lhe o que o futuro líder do processo de libertação do colonialismo espanhol na América do Sul nunca vira nestes territórios e há documentos que comprovam a influência de Humboldt até em muitas leis promulgadas após a independência.
Apesar da diferença de idade, Charles Darwin encontrou-se com Humboldt e designou-o como o “maior viajante científico que alguma vez viveu”. E confidenciou que não podia ter chegado aonde chegou, se não tivesse conhecido a vastíssima obra deste cidadão do mundo que foi praticante de uma visão ambientalista apenas reconhecida nas últimas décadas.

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