Recentemente o World Economic Forum destacou o projecto “Take Home a Student”, o qual foi concebido por uma organização sem fins lucrativos da cidade italiana de Milão, a MeglioMilano.
Apesar deste projeto não ser recente, os seus impactos começam agora a ganhar alguma visibilidade internacional, uma vez que o envelhecimento populacional e o crescente isolamento social são questões cada vez mais prementes na agenda demográfica da maioria dos países desenvolvidos.
Pirâmides etárias invertidas e uma população activa sobrecarregada entre os custos da educação das gerações futuras e o envelhecimento com dignidade das gerações que as educaram, são dois desafios comuns, sobretudo nos países europeus.
Desde 2004 que o projeto desenvolvido na cidade de Milão criou mais de 600 parcerias entre idosos que viviam sozinhos nas suas casa e jovens estudantes que procuravam alojamento acessível numa das cidades mais caras da Europa.
Os estudantes pagam algumas das despesas, realizam tarefas domésticas e ocupam o seu tempo com os anfitriões, criando o que os organizadores do projecto apelidaram de “círculo virtuoso”.
Pelo acompanhamento que proporciona aos idosos e pelo ambiente de estudo tranquilo que oferece aos estudantes, este é um projecto que está a merecer a atenção de várias municipalidades um pouco por todos os países da OCDE.
Além de demonstrar que é possível a partilha do espaço doméstico entre gerações tão diferentes, este programa pode contribuir para melhorar o bem-estar social, uma vez que a iniciativa acaba por combater o isolamento em si mesmo, uma caraterística da vida moderna em todas as faixas etárias.
Alguns estudos realizados sobre os impactos deste projeto revelaram melhorias significativas na saúde mental dos idosos, chamando a atenção das entidades públicas que começam já a equacionar este tipo de projecto como uma alternativa às redes sociais de apoio domiciliário aos idosos.
Tal como já escrevi em artigos anteriores, o paradigma demográfico está a mudar radicalmente por todo o mundo, e as próximas décadas serão determinantes para encontrar um equilíbrio social entre gerações.
Segundo o World Economic Forum, a população mundial com mais de 60 anos chegará a 1 bilhão já em 2020 e, naturalmente, ultrapassará a população jovem em muitos dos países desenvolvidos.
Iniciativas como a “Take Home a Student” existem formal ou informalmente em Portugal, especialmente nalgumas freguesias das zonas urbanas de Lisboa e Porto, onde o isolamento das populações idosas é um problema crescente.
Mas também muitos Concelhos do Interior do país já têm as suas iniciativas de acompanhamento regular da população idosa, cujo isolamento é agravado pelo facto de a maioria destes Concelhos terem verificado um decréscimo acentuado da sua população jovem nas últimas duas décadas.
Apesar dos desafios deste tipo de iniciativas, como o eventual choque de expetativas, o desconforto em abordar questões relacionadas com a limpeza e regras domésticas, estes projectos têm o mérito de aproximar gerações e de contribuir para a partilha de vivências e experiências.
O MeglioMilano, assim como as várias iniciativas em Portugal, são a prova de que é possível uma cooperação construtiva e pragmática entre gerações afastadas por várias décadas de vivência.