Após ter escrito sobre memórias, lugares, histórias e acontecimentos das décadas de 70, 80 e 90, em Portugal e no mundo, eis-nos no início dos anos 2000.
Os nascidos nessa década, a denominada Geração Z (Zenials), hoje denominados, nativos digitais, cresceram com internet e smartphones, tornando a tecnologia parte natural de suas vidas, isto é, já nasceram conectados. Que perceção terão desses anos?
É este o desafio que me proponho traçar: como hoje, em 2026, olho para os acontecimentos globais que moldaram a forma como passámos a olhar o mundo em geral e a nossa vida em particular.
Temporalmente ainda, muito próxima dos nossos dias, esta década aparece muito diluída nas nossas memórias, tendo em atenção as transformações económicas, sociais e políticas, que em catadupa, têm alterado a ordem mundial até agora vigente.
E, no entanto, esta década influenciou e alterou de forma decisiva e marcante, em Portugal e a nível internacional, a forma como vemos o mundo.
Os anos 2000 a 2009 foram marcados por eventos chocantes que abalaram o mundo, como os ataques de 11 de setembro e a crise financeira de 2008, mas também, por eventos transformadores, como a rápida ascensão da internet e das redes sociais, o surgimento de novas tecnologias e mudanças culturais significativas.
E como tudo começou?
Pelo famoso bug do milénio. Um problema de programação informática (Y2K), que ao passar de 1999 para 2000, poderia paralisar e corromper ficheiros. Havia o temor de um grande desastre económico, com consequências graves para as empresas e para o sistema financeiro. A comunicação social alimentou cenários apocalípticos. Hospitais sem funcionar, aviões em terra, falhas de eletricidade … enfim, o fim do mundo. E não havia ainda redes sociais para espalhar mais o alarme e teorias de conspiração. Quem na altura nada percebia de informática, como eu, olhava para estes cenários com estranheza e mas também insegurança. A tecnologia invisível só ao alcance de alguns.
Mas a verdade é que foram contratados e implementados muitos sistemas de segurança, para proteção e melhoria das infraestruturas digitais. Foram gastos milhões de dólares para se evitar o caos. O bug invisível redefiniu prioridades na indústria tecnológica.
E, nada aconteceu. Para o cidadão comum fica a sensação de que o perigo nunca existiu. Ficou a ideia de que nos tinham enganado.
Fiasco, mito, alarme falso, ou, um sucesso global em termos de prevenção da segurança tecnológica? São leituras possíveis.
Resolvido o bug, o ano 2000 prossegue como um ano igual aos outros. A Europa está em choque com o número de votos obtidos pelo partido da Liberdade da Áustria, de Jorg Haider, e pelo facto de a extrema-direita ter assim voltado ao poder num país da União. Pois, e hoje como estamos? Já não é só no mundo lá fora. O extremismo já está no nosso quintal.
Durante o Jubileu, o Papa João Paulo II fez um pedido solene de perdão a Deus pelos erros e pecados cometidos por membros da Igreja Católica ao longo da história, incluindo os relacionados às Cruzadas, à Inquisição, perseguição de judeus, mulheres, hereges, e falhas no combate à pobreza e ao racismo, num gesto inédito de humildade e reconhecimento dos erros humanos dentro da instituição.
É nesse ano que Vladimir Putin é eleito presidente da Rússia.
Afinal tudo parece que começou em 2000.
A respeito do BUG de 2000, como funcionário de uma empresa de telecomunicações americana, participei nessa operação, com os meus colegas passamos 48 horas de alerta pois tínhamos de controlar todo o processo à volta do mundo da Australia aos USA.
No final ficamos convencidos de que tudo foi provocado e nada iria acontecer.
Fomos enganados e bem enganados.