Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Como vai este país: Uma saúde engripada

Florentino Beirão - 18/01/2018 - 9:35

Muitos portugueses, nas últimas semanas, têm experimentado dois incómodos espinhosos nas suas vidas. A crescente degradação dos centenários serviços dos CTT, agora privatizados, e as urgências hospitalares, a rebentar pelas costuras, por força de uma moderada crise gripal. Detenhamo-nos nesta última situação, tentando indagar as suas raízes e os possíveis remédios. Trata-se de uma situação grave, relacionada com o bem-estar geral da população. Sobretudo, a mais doente e a mais idosa.
Como sabemos, todos os problemas sociais têm as suas causas. Algumas mais longínquas, estruturais, outras mais momentâneas, conjunturais. No caso vertente, podemos enumerar as que se relacionam com a falta de investimento nesta área, sobretudo no tempo da malfadada troika que sangrou a saúde. Esmifrado que foi o investimento neste sector, tem tardado a cobertura do volumoso buraco existente, há largos anos.
Acresce ainda, o facto de terem emigrado alguns milhares de profissionais da saúde, sobretudo enfermeiros e médicos para Inglaterra, países árabes e Bélgica. É todo este volumoso contingente humano, formados com os nossos impostos, que agora começa a faltar para fazer face ao normal funcionamento dos hospitais e centros de saúde. Deste modo, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) considerado internacionalmente, como um dos melhores, nos últimos anos, tem-se vindo a degradar de tal forma - numa erosão preocupante - que exige medidas atempadas e eficazes, para responderás necessidades dos cidadãos.
Bastou a degradada situação que ocorreu nas últimas semanas, com a chegada espectável de uma crise gripal, para deixar as urgências de alguns hospitais de pantanas. Falta de camas, de médicos e enfermeiros, tanto nos hospitais, como nos centros de saúde. As numerosas imagens de macas amontoadas, nos desconfortáveis corredores das urgências, não deixaram margem para dúvida. 
Face a este panorama, podemos concluir, com segurança, que o nosso SNS não se encontrava preparado para responder a esta crise. Como aconteceu no verão, com a maldição dos fogos, a prevenção dos problemas, não será o nosso título de glória. Pelo contrário, o Estado, quase sempre, costuma correr atrás do prejuízo, em lugar de prevenir situações prováveis. Ser pró-ativo, tentando debelar, atempadamente, os problemas, será certamente, uma exigência inerente, a quem governa um país. 
O diagnóstico sobre esta recente incapacidade, já se encontra bem desenhado. A razão desta situação, avançada pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, relativamente à incapacidade demonstrada pelo Governo, na solução atempada dos normais problema de saúde pública, tem sido a crónica falta de recursos humanos e materiais no SNS.
 A esta degradada situação, se fica a dever a morte de doentes - 600 acima do esperado -sobretudo pessoas idosas, por vezes, com patologias associadas complexas. Algumas delas depositadas em contentores, por falta de espaços dignos em alguns hospitais, obrigados a fechar enfermarias. Como consequência destas situações degradantes, acresce ainda que vai tardar que os hospitais regressem ao seu normal, uma vez que, em virtude desta situação de crise, os foram impelidos a ter de adiar muitas cirurgias já programadas.
Sabemos ainda que, em apenas duas semanas, os hospitais de Lisboa tiveram que realizar cinco mil consultas. Devido a esta avalanche, doentes houve que tiveram que ser encaminhados para hospitais privados, devido à incapacidade dos públicos em os acolher.
Segundo alguns peritos, o remédio para debelar estas situações de número excessivo de doentes que acorre aos serviços de urgência estará relacionada com a falta de literacia da população, falta de consultas disponibilizadas nos centros de saúde, onde não há exames complementares de diagnóstico e com horários laborais reduzidos. Acresce ainda à perceção de muitos em considerarem que há uma falta de credibilidade nas consultas efetuadas nestes locais. Urge assim uma educação da população para saber lidar com as alternativas que se lhe oferecem. Ao governo, sobrará o dever de promover uma adequada informação. Enquanto os centros de saúde não tiverem capacidade para oferecer uma resposta rápida e eficaz, as urgências continuarão a ser a opção mais prática e acessível, com todas as consequências negativas daí derivadas. Uma saúde (en) gripada, não serve.
florentinobeirao @hotmail.com

COMENTÁRIOS