"O próprio Brexit é um fator de destaque do Labour. Atua como um Big Bang, levando, de igual modo, ao compromisso e ao tumulto político e, nesse processo, preenchendo a mudança trabalhista de formas únicas e imprevisíveis. O partido mantém-se embaraçosamente dividido sobre a saída britânica da UE e o correlativo tema da imigração.” (“Europe’s left looks for Jeremy Korbyn”, Naomi O’Leary, Político, 20-07-18).
Comentando há dias a propensão dos povos do Leste para os nacionalismos autoritários, alguém exclamou: “pelo ‘menos’ a social-democracia”! Confesso que fiquei apreensivo sobre o que seria o ‘mais’ e se não seria o ‘tanto’ de que eles agora fogem, como o diabo da cruz. Não creio!
O desabafo, porém, é talvez ilustrativo de um outro fenómeno: o da força com que um certo positivismo nos chegou do século XIX, sustentado em crenças e num interiorizado quadro mental de sistematização da realidade.
Não cabe aqui falar, a propósito do trabalhismo, sobre a crença no monopólio do processamento ‘científico’ da realidade social. E de como ela se projeta em elitismos (DEBITA NOSTRA LXV) que vão da sobranceira convicção numa superior ‘consciência’ a mais comezinhos julgamentos sobre as estruturais incapacidades ou os ínvios interesses de quem a não alcance.
Já quanto a uma específica arrumação mental do vivido, cujas marcas remontam à origem da social-democracia, ela manifesta-se sobretudo numa conceção finalista do devir histórico e do papel que o ‘trabalho’ nele há de desempenhar. Mas também, por isso mesmo, numa espontânea distinção do mundo em dois hemisférios, separados por uma fundadora legitimidade moral.
A “Questão Social” (séc. XIX) viera interpelar a incipiente democracia na sua decisiva justificação: a vontade popular. Se a modernidade demonstrara que a sociedade muda e consagrara um inimputável “povo” como legitimador de todo e qualquer projeto social (DEBITA NOSTRA CII), porque haveria ele de aceitar ser vítima e acolher-se à desesperante penúria a que o votara a ‘razão’ liberal?
O proletariado ganhou assim uma particular legitimidade que, à boleia do fervor positivista na determinação das leis por que funciona a sociedade, revirou a dialética (Hegel), no sentido de lhe atribuir a autoridade exclusiva numa predestinada mudança social, em nome de derradeira legitimação.
É claro que, numa perspetiva não idealista, tal narrativa só colhe na medida em que corresponde às características e aos anseios de uma determinada base social, em que o trabalhismo também se filiou. Mas que, sintomaticamente, se tem vindo a acanhar de uma dimensão e ambição planetárias, agora que outras não menores causas se dirimem à escala global.
Num dilema que divide o próprio Labour entre a “velha social democracia” (Giddens), a de uma “velha classe média” agora acossada pela globalização liberal, e a da novíssima geração dos que mais a sofrem, mas que também mais apetrechados se encontram para lhe resistir.