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Crónica: Debita Nostra CLXI

Luís Costa - 22/04/2021 - 9:15


"Tal estado de coisas era favorecido pelo sistema sociopolítico liberal o qual, segundo as suas premissas de ‘economismo’, reforçava e assegurava a iniciativa económica somente dos capitalistas, mas não se preocupava suficientemente com os direitos do operário, afirmando que o trabalho humano é apenas um instrumento de produção, e que o capital é o fundamento, coeficiente e finalidade da produção” (João Paulo II, 1981, Laborem Exercens).
Não foi por acaso que as teses liberais tiveram um particular impacto no mundo laboral (DEBITA NOSTRA XLIV a XLVIII), levando a que, na resposta às suas mais graves crises, o cerzir das sociedades democráticas passasse exatamente pela regulação do trabalho. E culminasse num acervo de legislação que, supostamente, lhes dificulta a concorrência na economia global.
O pressuposto de que a igualdade de oportunidades se consuma numa formal equivalência perante a lei, e numa ‘admitida’ mobilidade social, repercutiu-se inevitavelmente nas relações contratuais de trabalho: com todos ‘em pé de igualdade’, quem estivesse mal que se mudasse…
E se este discurso ganhou mesmo traços caricaturais, nem por isso refletiu menos o efeito legitimador da ideologia liberal sobre tanto desequilíbrio, ou augurou a sua superação. O que não quer dizer que a situação fosse inédita ou se tenha quedado por aí…
Mas, sobretudo, que, nos seus desenvolvimentos, ela possa ser tratada como invariável, geneticamente presa ao modo da revolução industrial, expectante no desempenho dos seus protagonistas, devedora das respetivas vivências, padrões-de-vida e “savoir-faire” ou atrelada a tal contexto pelas contradições que ele próprio suscitou.
Desde logo, a que, reclamando-se do pensamento dialético, lhe impôs um fim; invocando o conhecimento científico da história, renegou a história do conhecimento científico; e, firmando-se numa filosofia materialista, tudo nela sustenta em inabaláveis crenças (DEBITA NOSTRA LXIII e LXIV).
Não se trata, pois, já desse debate sobre a mudança social preso a ‘determinadas’ preferências ‘estéticas’ pela reforma ou pela revolução. Ou do menosprezo que nele mereçam os efeitos pendulares desta última (DEBITA NOSTRA XXIX e XXX) e o papel nela tradicionalmente assumido pelos ‘deserdados filhos-segundos’.
Trata-se, sim, de indagar como é que a mudança pode decorrer de ‘formas’ sociais que já foram, ainda que persista o “economismo” que as gerou. Como se o estrutural desarranjo das estradas houvesse sempre de depender da habilitada intervenção dos cantoneiros…
As sociedades pós-industriais criaram novas aspirações societárias e outros campos de pobreza e exclusão (alguns tecnologicamente apetrechados), a par de formas privilegiadas de trabalho assalariado. E descentraram o operariado industrial, reduzindo-o e estratificando-o em função de uma sustentada capacidade reivindicativa.
E se nelas a mobilidade social não desviou o “povo” de uma “admiração, reticente ou reverente” pelas competências letradas (Benavente et al., 1987, pp. 106), também lhe proporcionou estratos mais escolarizados.
De cuja abnegada e civilizadora propulsão dá hoje testemunho o ‘brilhantismo’ das redes sociais. 

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