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Crónica: Debita Nostra CVII

Luis Costa - 22/02/2019 - 9:54


"Na sociedade de produtores, o conselho mais provável, depois de uma falsa partida ou de uma tentativa falhada, seria: ‘tenta novamente, com mais destreza e maior aplicação’; mas não na sociedade de consumidores. Aqui, os meios que falharam são para ser abandonados em vez de aperfeiçoados e reaplicados com mais habilidade, mais dedicação e um esperado melhor efeito.” (Tradução livre de Zygmunt Bauman “Consuming Life”, 2007, pp. 36).
Imaginemos que a vulgarização das viagens no tempo nos permitia acolher a visita de um grupo de cidadãos da “sociedade de produtores”, incluindo um estágio numa superfície comercial.
Far-se-iam perguntas, ouvir-se-iam sugestões, tomar-se-iam notas, mas uma coisa é certa: nem eles ficariam a produzir da mesma forma, nem tão pouco se quedariam pela reprodução acrítica dos produtos que encontrassem.
É esta pulsão criadora que constitui o aspeto mais distintivo da sociabilidade na “sociedade de produtores”, por contraposição à da “sociedade de consumidores”, tal com as caracteriza Bauman. Seja no que se refere às idas ao supermercado, seja nas mais espaçadas deslocações à mesa de voto, pela marca do que nos é dado escolher.
Podemos estar mesmo desagradados, atraídos pela abstenção, resignados a um incontornável mal menor. Ou, ao invés, seduzidos pelos recorrentes ardis publicitários e pelas mais refinadas técnicas de vendas. Nada que se assemelhe à força mobilizadora com que, na “sociedade de produtores”, se acreditava ter nas mãos a modelação do próprio destino.
Mas não foi sem garantias que nos desligámos do processo produtivo. Poderá sempre haver marcas que nos suscitam inteira confiança, dispensando-nos de uma mais criteriosa seleção. E não se abriu o mercado a todos produtores para que estes demonstrassem por que os haveríamos de escolher?! 
É claro que este propósito radicou numa liberal abstração: a de uma igualdade de todos perante o mercado que nunca existiu. Só pelo persistente esforço de muitos se lhe foram doseando as “assimetrias”, de modo a assegurar uma outra legitimidade: a do método democrático, para que ainda não encontrámos alternativa credível.
Porém, a elegibilidade do método não explica a rarefação dos produtos, sobretudo num período de racionamento dos bens essenciais e de um generalizado apelo ao jejum. Num mundo em que os produtores se desdobram para acorrer à avidez dos mercados financeiros, se é que estes não determinam já o que aqueles hão de produzir.
Talvez se tenha vindo a confundir método e objetivo, fazendo da democracia uma mera formalidade, apenas invocável enquanto nos sustenta os mal disfarçados interesses. Assim preconizando a rasteira lógica das autoproclamadas “democracias iliberais”.
O que é certo é que os necessários produtores rareiam, inundando-se as bancas com o inesgotável espólio novecentista. Quer quando se lhe aprimorou a embalagem, correspondendo aos mais recentes padrões mercantis, quer quando estes se pretendem contrariar, empunhando fervorosamente o livro de receitas da avó.
Luís Costa

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