"Na minha encíclica “Laudato Si” enfatizei que hoje, mais do que nunca, tudo está profundamente ligado e que a salvaguarda do ambiente não pode separar-se da garantia de justiça para os pobres e do encontro de respostas para os problemas estruturais da economia. Precisamos de corrigir modelos de crescimento incapazes de garantir respeito pelo ambiente, abertura à vida e preocupação com a família, a igualdade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das gerações futuras.” (Tradução livre de “Letter sent by the Holy Father for the event ‘Economy of Francesco’”, Francisco, maio de 2019).
Tenhamos assim a coragem de atribuir às práticas desviantes das democracias a sua atual regressão, sobretudo junto daqueles que as puderam viver de perto e hoje se acolhem a aconchegos autoritários ou ao prestidigitador aceno dos nacionalismos.
Não se pense, porém, que tal situação se deve apenas ao cruento impacto do neoliberalismo. Ou, então, àquele endémico chico-espertismo que nunca rejeitou o (pre)conceito pré-republicano de que ao poder há de corresponder o privilégio (privu lege), se é que não um autárcico desprezo pela lei.
Deve-se sobretudo à pantanosa assunção de que a democracia, o meio que a humanidade encontrou para melhor gerir os seus anseios, é um fim em si mesmo. Autómato ziguezagueante e formalmente surdo ao crescendo das vozes que continuam a clamar por responsabilidade, por justiça, por criatividade.
E se tanta presunção tem como breviário a conhecida tese do fim-da-história (Fukuyama), também não encontrará desmentido nos que ciosamente o reservam para si. Pronto a declamar em qualquer ocasião, mas impermeável às sinuosidades do tempo ou aos casos em que ele próprio se lhes derramou no bolso.
Assim se enjeita o papel histórico da Utopia (DEBITA NOSTRA CXIV) sem o qual nenhuma crise estrutural pôde ser superada. Quer porque a Utopia se compraz com a dignidade e o potencial bem-estar de todos. Quer porque é nisso que busca a sua indispensável e mobilizadora atração. Quer porque, apontando ao intangível, quotidianamente nos compromete com a contextual responsabilidade de governar na sua direção.
Pode certamente preocupar-se com a anorética delimitação dos direitos sociais e políticos, se não esquecer que ela hoje se decide a uma muito larga escala e que, em diversa medida, está presente nos cuidados com que se debatem 500 milhões de cidadãos europeus.
Pode certamente preocupar-se com outras causas identitárias e/ou fraturantes, se não esquecer que qualquer projeto emancipatório nunca poderá omitir vivalma, ambicionando muito mais abrangentes processos de identificação.
Não há de sobretudo esquecer que do baú da história se poderão sacar coisas velhas e coisas novas que criativamente reequacionem o crescimento e a organização social e contemplem a distribuição do poder, da riqueza, do trabalho e das oportunidades.
Começando pela incontornável preservação da “casa comum” e um outro respeito pelas “gerações futuras”.