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Debita Nostra CXXIX

Luís Costa - 09/01/2020 - 10:14

O chamado precariado, (…), que reúne diversas franjas de uma classe trabalhadora medianamente qualificada, predominantemente jovem e sem estabilidade económica, pode, em condições de instabilidade e de quebra brusca de mobilidade (…), protagonizar ciclos de conflitualidade capazes de arrastar consigo muitos destes segmentos da classe média, como de resto tem acontecido em períodos de crise”. (Elísio Estanque, “Onde pára a classe média? Breves notas sobre o conceito e a realidade portuguesa”, 2017, pp. 37-54).
Se as diferentes características, entre as chamadas “nova classe média” e “velha classe média”, podem ajudar a compreender a maior permeabilidade desta última aos desafios nacional-populistas que enxameiam a Europa (DEBITA NOSTRA CXXVII). Se esta situação se adensa numa insensibilidade social que ganha terreno mesmo entre os sindicatos, como na Alemanha (DEBITA NOSTRA XCV e XCVI). 
Há um outro aspeto que merece atenção. O da centralidade de toda a classe média, quer nas múltiplas manifestações da atual insurgência juvenil, quer no arrasto das camadas mais desprotegidas da população: os habilitados herdeiros das “vítimas da fome”, a que já se atribuiu uma ‘predestinação’ revolucionária.
Tal constatação relembra-me a expressão com que um dia aqui comentei (DEBITA NOSTRA XCIX) o reconhecido fenómeno da persistência da pobreza: o problema é que os pobres não têm poder e, quando o adquirem, já deixaram de ser pobres.
Olhemos então para este “povo”, enquanto estrato dos “mais desfavorecidos” da população, e para as formas como, nas suas características, foi sendo ‘reabilitado’, em diferentes narrativas, a começar pela do liberalismo.
A atualidade do tema prende-se com a dicotomia que, por antagónica conveniência, se foi estabelecendo entre liberdade e igualdade, à revelia, aliás, do tríptico guião liberal: “liberdade, igualdade, fraternidade”.
Sem a liberdade jamais o sistema liberal poderia ter rompido as peias do Antigo Regime e os privilégios que nele obstaculizavam um mais solto mercadejar. Daí que procurasse extingui-los, invocando algum nivelamento e alargamento da participação política.
Que tal era o mote, testemunham-no os argumentos contra o novo regime e a sua ‘aposta’ no “sufrágio popular”: “vedes o homem mais íntegro do reino e o mais infame? Cada um deles tem o seu voto; mas qual vale mais na urna? Qual influi mais na eleição do candidato?” (DEBITA NOSTRA LXXXIX).
Assim, travestida de objeções morais, esta era a questão política a que urgia atender e que a muitos empenhou num generoso afã educativo. Só ele poderia obstar à ‘naturalização’ do condicionamento (censitário) da igualdade se, para os interesses emergentes, não se tratasse tão só da igualdade q.b., para assegurar a respetiva liberdade.
Ou seja, de uma igualdade formal que, ao apregoar a liberdade para todos, sem ter em conta as condições dessa mesma liberdade, apenas visava a liberdade de quem as detinha.
O que, convenhamos, é forma assaz enviesada de demonstrar o diferente mérito.

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