O Cântico dos Cânticos é um dos livros do Antigo Testamento constituído por poemas que cantam o amor entre dois noivos ou jovens esposos. Eles experimentam o amor sob múltiplas formas - beijos, palavras de carinho, carícias, união íntima. Encontram todo o tipo de palavras para falar um do outro: a mulher é um lírio, a mais bonita tal como a lua e o sol; o homem é um rei, um filho de gazela, o amado. Eles valorizam a beleza corporal, que é caminho natural para a sedução e contemplam-se, apresentando as comparações mais originais para descrever o seu amor.
Julgo estar representado neste Cântico aquilo que Bento XVI, na sua encíclica “Deus é amor”, designa de eros. O ser humano é composto de corpo e espírito e só quando estas duas entidades, diz o Papa, “se encontram em íntima unidade” é que “o desafio do eros pode considerar-se verdadeiramente superado”. Ora, nessa intimidade, “numa atmosfera de liberdade e de igualdade, de um face ao outro, num amor onde o carnal é espiritual e o espiritual é carnal”, como diz a biblista Luísa Alemndra, cada um procura descobrir e cuidar daquele e daquela que é sujeito da sua sedução. E é nesta descoberta, neste cuidar recíprocos que a ágape emerge.
A vertente ágape do amor está bem evidenciada no hino de S. Paulo, na sua primeira Carta aos Coríntios e sobre a qual o Papa Francisco faz uma meditação em “A Alegria do Amor”. O tema do amor no matrimónio é central na sua Exortação Apostólica. Ele fala da alegria e da paixão que aquele suscita bem como do lado negro da violência. Assinala, ainda, que a paciência é uma qualidade que marido e mulher têm que cultivar para que a união se torne consistente. Tornamo-nos impacientes “quando exigimos que as relações sejam idílicas, ou que as pessoas sejam perfeitas, ou quando nos colocamos no centro, esperando que se cumpra unicamente a nossa vontade”.
Pergunto-me se o fracasso de muitas uniões não resultará, precisamente, na predominância de um eros inebriante, centrado nele próprio, em relação a uma ágape serena, disponível, que procura mais dar do que receber?! Na conciliação entre ambas as formas de amar não residirá a essência do amor conjugal?!
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