O facto de as mobilizações utilizarem as redes sociais digitais, mas também os média tradicionais e a praça pública, como interfaces de mediação e, ao mesmo tempo, lugares de aparição e de visibilidade, se cria novos desafios à análise conceptual e compreensão dos novos movimentos, (…), incentiva também a um questionamento sobre a emergência de novas formas de cidadania no meio urbano.” (Babo e Taborda da Silva, ULP, 2016).
Foi no auge da presente crise que assistimos à emergência dos “millennials” ou, pelo menos, à sua maior visibilidade social (DEBITA NOSTRA CXVIII). Muitas vezes em conjunto com outros setores da população particularmente afetados pelos fundamentalismos austeritários, tomaram a praça pública um pouco por todo o lado. (Os autores têm vindo a associar a chamada “primavera árabe” a outras variantes ocorridas desde a Islândia aos E.U.A., passando naturalmente pela europa do Sul).
Com uma distinção: o novo tipo de relacionamento, de alguma forma mediado pelas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Porém, de um impacto que hoje parece diluir-se na profusa incontinência das redes sociais, remetendo para o efémero a expressão pública e a espessura social daquelas anteriores manifestações.
A questão que se levanta é a de saber se tal efemeridade se deve à sua inconsistência ou tão só à pautada cadência da gestação de novas formas de cidadania. Tanto mais quanto, em simultâneo, se vem assistindo a uma recomposição da base social e dos pretextos para a ação sindical (atração por narrativas populistas, agremiação por interesses meramente corporativos, preferência por vias mais inorgânicas de reivindicação e representação).
De qualquer modo, uma fluidez que espelha bem a sua inconformidade com as mais tradicionais fórmulas políticas e sindicais, na medida em que lhes prefere a debilidade à consolidada rotina. E que elas, desde logo, reconhecem, ao se prestarem a formas de colaboração em que renegam as origens. (Veja-se a preocupada recusa de qualquer conotação partidária e sindical em substantivos sucessos como o da manifestação “Que se lixe a Troika - queremos as nossas vidas”, de 15 de setembro de 2012, por exemplo).
É claro que há também aqui uma latente inconformação com a irredutibilidade das posições estruturalistas, para quem as novas formações sociais decorrem do molde da estrutura global, só reconhecendo o estatuto e a virtude políticas das que, na sua perspetiva, a visam alterar.
O mais provável, porém, é que em todos estes afloramentos (se in)surja a tanto mais contundente quanto impercetível (re)pressão do chamado ‘poder de primogenia’ (DEBITA NOSTRA LXXXVIII). A enorme capacidade dos que vêm primeiro para definir a conveniência dos tempos e dos modos (na medida em que o que já existe tece, invariavelmente, a sua própria indispensabilidade).
A qual, pelas mais insuspeitas formas, se há de manifestar em tudo aquilo onde desponte o menor assomo de novidade.
Luís Costa