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Crónica: Debita Nosta LV

Luís Costa - 09/02/2017 - 11:04

As convicções de Salazar perdurariam para além da II Guerra Mundial. Por conseguinte, se até então ele era um elemento numa mescla volátil mas generalizada de crenças, que iam da democracia-cristã ao fascismo italiano e ao nacional-socialismo, unidos acima de tudo por uma rejeição da tradição parlamentar e da ideia de uma inevitável luta de classes, passou depois a ser um solitário na cena internacional.” (F. Ribeiro de Menezes, 2009, “Salazar - Uma Biografia Política”, pp. 191).
Quando no séc. XIX o liberalismo implantou arraiais, uma coisa se tornou evidente para muita gente: a sua abstrata conceção de liberdade, de que supostamente resultaria o espontâneo benefício de todos, destruiu formas elementares de solidariedade e proteção, herdadas das sociedades tradicionais, gerando inusitados desequilíbrios e o consequente conflito social.
A convicção de que no século anterior (XVIII) se havia rompido com um certo aconchego das velhas corporações, “sem as substituir por coisa alguma”, era então vulgar. Não admira assim que, nos setores mais conservadores, tivesse germinado uma nova conceção corporativa. A da criação de agremiações profissionais, por setores de atividade, que aí corporizassem e regulassem os interesses em presença, gerando os necessários equilíbrios, de modo a evitar uma geral conflitualidade e a “ideia de uma inevitável luta de classes”. 
Bem como de que tal tipo de organização económica, a partir das bases, dispensaria bem mais recentes formas de representação política, sempre à mercê da demagogia e do igual voto de indivíduos desigualmente qualificados, como o parlamentarismo.
Só que esta recauchutada emergência corporativa iludia o novo contexto social. O de uma outra sociedade, distinta das tradicionais, em que a hegemonia liberal gerara uma significativa individualização, uma desregulada privatização e uma extremada conflitualidade social. 
E introduzira o pressuposto de que interesses de patrões e empregados se encontravam em pé de igualdade e com idêntico poder negocial, pois só então voluntaristicamente se poderiam rever e conjugar na fórmula corporativa. Sobretudo se esta, correspondendo à sua versão inicial, se encorpasse por iniciativa própria e de baixo para cima (Menezes, pp. 111).
Ora, ao invés, desenraizado do contexto social que o inspirara, cada vez mais este corporativismo aparecia como uma construção do autoritarismo do Estado e dos interesses que ele melhor representava. E originava receios de que, mais do que propiciar “a pacífica colaboração das classes”, ganhasse um “caráter excessivamente burocrático” e servisse “a particulares intentos políticos” (Quadragesimo Anno). 
Entrava, assim, na “mescla volátil mas generalizada de crenças” de que fala F. Menezes e que importaria escalpelizar com instrumento mais fino que, na tradição de Max Weber, permitisse melhor diferenciação entre o centro e o sul da Europa. Mas que, contudo, desde logo se entrelaçavam na “rejeição da tradição parlamentar”, característica do liberalismo político.
É que, não só este surgira associado à afirmação do rejeitado liberalismo económico, como estava ainda longe da depuração que um século de lutas políticas lhe haveria de proporcionar.

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