"Mas nem só de portugueses se faz o estudo All about Geração Millennium, que resulta de um inquérito feito a 5000 millennials entre os 18 e os 34 anos de Portugal, Espanha, França, Inglaterra e EUA. Entenda-se por millennials (…) aqueles que nasceram entre os anos 1980 e 2000 — uma parcela que, em 2016, representava 25% da população mundial e que, em 2025, representará 75% da força de trabalho mundial, prevê-se na pesquisa.” (OCDE – Público, 04-06-2018).
A “juventude” não é certamente uma categoria social homogénea. Porém, os “millenials”, coorte particularmente afetada pelo desemprego, desregulação e intensidade do trabalho, precariedade, dependência e dificuldade em constituir família, são um bom exemplo do atual descuido com “as gerações futuras” DEBITA NOSTRA XCVI). Não porque sejam protagonistas de uma situação histórica inédita (DEBITA NOSTRA XCVII), mas pela sua visibilidade, quer em termos de dimensão, quer de incidência social.
Desde logo, enquanto numerosa vítima da globalização (liberal). A mesma que, dizendo-se única e invocando uma circunstancial atenuação da pobreza (Oxfam, 2019), produziu a maior concentração de riqueza de que há memória (Piketty, 2013).
Ora, as significativas mudanças sociais sempre estiveram menos dependentes do necessário escoamento da crescente produção que das subsequentes preocupações com uma mais equitativa distribuição do rendimento.
E se esta globalização, frequentemente sob a ditatorial batuta do “capitalismo asiático”, reduziu pobrezas, fomentando a emergência de ‘outras’ classes médias, veio especialmente confrontar (já na sua “millennial” descendência) as que se modelaram no uso de direitos políticos e sociais, pilar das sociedades democráticas.
As ‘nossas’ classes médias foram uma emanação da “modernidade”, do seu inerente ‘direito’ à mobilidade social, entendido como a possibilidade de trânsito individual pelas camadas da hierarquia (estratificação) social.
Também aqui se não fala de mudança social (os percursos individuais não alteram, por definição, a estrutura global) senão na medida da novidade do processo. Quer por ele rompeu com estanquicidade da estrutura social medieval. Quer porque procura legitimar-se acenando com o mérito (ainda que o liberalismo, omitindo os diversos pontos de partida, delibere beneficiar os que já partem em vantagem). Quer porque é mesmo meritocrático (no sentido em que, face aos múltiplos obstáculos, só os melhores, de entre os ‘desvantajados’, têm real oportunidade de romper o cerco social).
É, assim, embalada na convicção destes pergaminhos, que esta classe média se vê aturdida pelo impacto de tal globalização. Não reagirá toda de igual forma, na sua heterogeneidade (como a que levou, à distinção entre “nova” e “velha” classe média, pelos diversos tempos e características de formação).
Reagindo, porém, vai, coerentemente, preferir a ‘sua’ solução individual para aquilo que é, hoje, um problema social. Nisso seguida pelos “millenials”, marcadamente individuais, que não necessariamente individualistas.
Até porque, nos contextos em que se autonomizam, vão reinventando as formas de partilha. Mas poder-se-á falar de um “precariado”?