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Crónica: Debita Nostra C

Luis Costa - 15/11/2018 - 9:24

"Quando falavam da nova pobreza tiravam-me do sério. Estavam a estabelecer uma fronteira entre os que mereciam ser apoiados e os que não mereciam. (…) As pessoas não entendem as verdadeiras causas da pobreza, não as conhecem, continuam a atribuir a culpa aos indivíduos. Temos esse problema mesmo no diálogo com os parlamentos. Há consenso que a pobreza é uma indignidade, mas não se consegue consenso para a combater.  (Sérgio Aires, presidente da Rede Europeia Antipobreza, PÚBLICO, 16-09-18)  
Por mais que isso custe a algum saudosismo, Jeremy Corbyn e Bernie Sanders não representam exatamente a mesma coisa. Tal não significa, porém, que a retoma de uma mundivisão trabalhista corresponda apenas ao regresso às origens de uma frustrada social-democracia (DEBITA NOSTRA XCIX), como gostaria o hegemonismo liberal.
Pese embora à abstração da igualdade de todos perante o mercado (replicada na da absoluta rejeição do mercado), a relação contratual de trabalho é, por norma, uma relação desigual. Desigualdade que o liberalismo nem reconhece, nem compensa, na sua fundamental coerência, para oculto benefício de quem está em vantagem.
O mesmo se passa na leviandade com que trata a pobreza, enquanto problema estrutural. Se a todos se oferecerem iguais oportunidades, é claro que serão os inaptos, ou os desgovernados, a ficar para trás. Casos não faltam a sustentá-lo, como aquele, universalmente ocorrido, do uso da banheira na extensão fundiária. Perante isto, não há direitos de cidadania que resistam a uma benevolente assistência, ou a mais áspera correção.
Mas, se contra factos não há argumentos, talvez o campo da factualidade possa ser um tudo-nada maior. Na evidência de que tanto a pobreza, como a riqueza, são fenómenos cumulativos, tão cumuláveis como as peças de um Lego. Ou ainda, na dos estudos sobre o impacto das expectativas na conformação do desempenho humano, o que já levou à proclamação do princípio do autocumprimento das previsões sociais (self-fulfilling prophecies).
Acontece, porém, que, com a crise, a pobreza se precipitou, na sua promiscuidade com o trabalho, na insinuação das suas estruturalidades, descolando do património dos ‘pobres’ e, deste modo, atingindo as fundações das nossas sociedades.  Não só por colocar na calha a classe média (depreciação e precarização), menosprezando o seu centripetismo político, mas também porque a belisca, enquanto repositório visível da mobilidade social (DEBITA NOSTRA LXXIX e LXXXI). A mesma que sustenta a legitimadora convicção de estar ao alcance de qualquer (de)mérito, tornando-se apelativamente popular. 
Ora, quando a própria social-democracia já se (a)presta a apelar o empobrecimento, porque haveria o ‘povo’ de desprezar os (en)cantos dos que lhe vão acenando com melhor segurança?
Ou, então, de nela acolher às reminiscências de um redentor proletariado, com os seus improváveis critérios de “bom senso e bom gosto”, ou mesmo o adesivo descrédito das mal-afamadas (in)soluções que, em seu nome, se perpetraram.

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