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Crónica Debita Nostra CCI

Luís Costa - 19/01/2023 - 9:32

A percentagem de coisas que não entendi da conversa, por manifesta falta de conhecimentos científicos de base, é demasiado embaraçosa para revelar. Mas, quanto à relevância da fusão nuclear, compreendi o essencial: a aposta de vários Estados na inovação científica e tecnológica, aliada a um investimento muito significativo de empresas privadas, foi capaz de acelerar nos últimos tempos a descoberta de mais uma forma de nos libertarmos das fontes de energia fósseis.” (Francisco Mendes da Silva, PÚBLICO, 24-12-2022).

Seja pelo atávico ‘costume’ de instrumentalizar o setor público em favor dos mais ‘ágeis desejos’ particulares; seja pela disseminada ideia de que é do seu cúmulo que nos há de chegar o “bem-comum”, temo-nos deparado com uma geral depreciação da forma democrática do Estado.

A globalização liberal condicionou-nos a comprar uma incondicional produtividade e ‘liberalizar’ o musculado ‘marketing’ do dito “capitalismo asiático”. E sugeriu-nos que, ‘a prazo’, fossemos ‘alegremente’ votando na degradação das nossas condições de vida, para generoso alívio da ‘tristeza’ de quem não precisava de votar, em liberdade. E pretendeu-se surpreendida com um abundante regresso ao ‘aconchego’ dos nacionalismos e do seu autoritário “way of life”.

Aprendera com a “ética protestante” a não precisar dos ‘empecilhos’ do Estado (Weber), para depois se esquecer dos ‘empecilhos’ da ética e mais facilmente tomar o Estado. E a sua original liberdade depurou-se da “igualdade e fraternidade”, para melhor nos convencer de que pelo mérito é que íamos, primeiro como indivíduos e, depois, na competição entre estados.

Generalizou-se, assim, a ‘moda’ de zurzir num Estado que, má-consciente da ‘natural’ condição dos seus ‘perdedores’, acabava por entravar o progresso dos ‘ganhadores’. Salvaguardando, porém, nesta conveniente abstração das relações de poder, todos aqueles que não teriam então vingado por partirem em vantagem, mas por tirarem partido do seu “menos Estado”. E que, a fazer fé nesta ‘universal receita’, do papel do Estado, apenas haveria que saber imitar.

Sem que se pusesse sequer a hipótese de que os ‘atrasos’ se devessem menos a não seguir os outros do que a tentar imitá-los nas suas próprias regras. E de que se prescindisse de com eles concorrer, quase exclusivamente, pela ação avulsa dos encartados competidores (geralmente firmados numa envergonhada estado-dependência). Mas, preferencialmente, com projetos democraticamente sedimentados, publicamente orientados e em benefício da coletividade, com os necessários recursos e alianças.

Mesmo quando, como no caso português, se fazia questão em elogiar o maior empreendimento da nossa história, a expansão marítima, também ela uma das nossas mais bem conseguidas parcerias público-privadas (daquele tempo em que se não destinavam a ‘proteger’ alguns de indesejáveis riscos). Ou, então, se vem desesperando de uma ‘mágica’ reforma estrutural, desde a “idade do ouro” do Marquês de Pombal.

E ‘esquecendo’ todo o pioneirismo do Estado nas mais significativas iniciativas de “inovação científica e tecnológica” da atualidade.

 

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