“De uma perspetiva negocial, sim, a casa e a escola são exatamente os lugares onde se produz, se desenvolve e prepara uma adequada força de trabalho; mas, de uma perspetiva humana, isso é tão estúpido como produzir um milhão de robots para consumir a comida que as pessoas já não podem pagar, ou lembrar aos países africanos (…) que terão de fazer mais para controlar o HIV porque, se toda a gente morrer, haverá efeitos adversos sobre a economia.” (Tradução livre de David Graeber, “Bullshit Jobs”, pp.266-267).
O debate fora suscitado pela ‘bizarra’ proposta de que os descontos para a Segurança Social pudessem ter por base o número de “chips” dos robots usados no trabalho. Mas desencadeou tal confusão que em tudo lembrava a recém-evocada imagem bíblica da edificação da torre de Babel.
Mais uma vez centrada na ‘velha’ questão da (in)compatibilidade entre a sustentação do Estado Social e a modernização da economia: não eram as empresas que pagavam as máquinas? Como é que poderiam competir face à universal recusa em assumir este tipo de encargos!?
O que é certo é que a Inteligência Artificial se assenhoreara da quase totalidade das tarefas humanas e o trabalho ‘ia’ escasseava. Os “colarinhos azuis” eram agora uma ténue memória do passado e Silicon Valley passara a ocupar-se dos cuidados de saúde, da educação e das múltiplas atividades liberais (Martin Ford, “The Rise of the Robots”,2015). Os seus objetivos começaram a ser o do melhor investimento e o da cabal antecipação da procura que deixou de ficar à mercê de ‘clicados’ voluntarismos, sendo dirigida para propostas dotadas de uma ‘correta’, ainda que onerosa, divulgação. Prevê-se até, para breve, a total automatização do financiamento, do investimento e do empreendedorismo, em geral. Por outro lado, na sua direta disponibilização, as casas já se oferecem dotadas de frigoríficos inteligentes, aptos a gerir e prover às necessidades alimentares de qualquer família.
O problema é que, apesar de terem sido criados frigoríficos de primeira, de segunda e de terceira, sem salários, tudo, mesmo o mais barato, deixou de se poder pagar. O que deu azo àquela anterior ficção (Stanislaw Lem, 1971) sobre a ativação do apetite dos robots. Mas não só. Houve mesmo quem sugerisse não desperdiçar o inesgotável filão do turismo e que todos nos treinássemos como estátuas vivas para podermos adornar os nossos mais atrativos recantos.
Porém, a discussão mais erudita recaiu sobre o “desemprego tecnológico” predito por John Keynes. Sempre à volta do paradoxo de saber se uma efetiva substituição do trabalho humano gera mais trabalho, ou obriga à ‘invenção’ de outras tarefas para evitar certos “efeitos adversos sobre a economia” (David Graeber).
Até que alguém, munido de uma imaculada sebenta (oximoro), sugeriu que se voltasse ao tema da modernidade:
- Porque não flexibilizamos o trabalho?!