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Crónica: Debita Nostra CCLI

Luís Costa - 09/01/2025 - 9:51

“Vivemos, trabalhamos, consumimos e brincamos em lugares diferentes; as nossas crianças frequentam escolas diferentes. E quando a máquina de seleção meritocrática faz o seu trabalho, aqueles que chegam ao topo têm dificuldade em resistir à ideia de que merecem o seu sucesso e que aqueles que estão no fundo merecem igualmente ocupar essa posição.” (Michael Sandel, 2022, “A Tirania do Mérito – o que Aconteceu ao Bem Comum?”, pp. 263).

Se o liberalismo se propôs superar a estratificação social existente nas sociedades tradicionais, geralmente entendida como de inspiração divina, rompendo com os presumidos ‘dons’ do nascimento (mobilidade social), é também por aí que importa avaliá-lo nos seus (in)sucessos. Tentando, na boleia, compreender a repulsa que sempre manifestou por tudo o que se insinue como ‘social’ e o seu empenho num ‘culto da individualidade’, pervertido no atual ‘síndroma do individualismo’.

E se não é certo que aquelas sociedades fossem adversas a uma “elevação social” pelo mérito (em abertura e prestígio a carreira eclesiástica de alguma forma cumpria essa função), também não é certo que a referida mobilidade lhe impusesse uma tão instante rejeição do ‘social’.

Na “ética” das sociedades puritanas em que Max Weber descortinou o “espírito” do moderno capitalismo, a apreciação dos dotes carismáticos não dispensava o dever de os colocar ao serviço das respetivas comunidades, todas elas munidas de poderosos instrumentos de regulação. O que a par de um fenómeno de “descompressão espacial”, característico das sociedades pós-coloniais, pode explicar muita ‘agilidade’ social, como a que existiu no chamado “sonho americano”.

Mas se tanto a nossa rigidez corporativa quanto a regulação social protestante já garantiam que pelos dotes pessoais (sageza e trabalho) se poderia ‘trepar’ socialmente, também os dons do ‘berço’ não seriam esquecidos pela ‘(ideo)lógica’ liberal, na sua eficácia política. É que, no afã de decretar a extinção formal (jurídica) do privilégio pelo nascimento, ela iludiu a sua informal (in)fluência e toda a discrepância de oportunidades plasmada na origem social. Ou melhor, legitimou-a, na medida em que seria agora a um ‘indivíduo’ (socialmente abstraído) que (con)cedia as ditas iguais oportunidades (legais). E “aqueles que chegam ao topo (e) têm dificuldade em resistir à ideia de que merecem o seu sucesso” aí estão para o confirmar, bem como a sofisticação da falácia meritocrática.

Demonstrando, porém, como o obsessivo ‘culto da individualidade’ não é um mero acidente, ainda que, pervertido no ‘síndroma do individualismo’, seja uma das maiores ameaças com que as nossas democracias se defrontam.

Ora, foi perante a ideológica ‘evidência’ de que “aqueles que estão no fundo merecem ocupar essa posição” que M. Young teceu a ironia, “The Rise of Meritocacy (1958), ilustrando, por seu lado, como o mérito-liberalismo veio agravar a estratificação que se propunha superar.

Facultando-nos, todavia, o argumento de como o tal ‘individualismo’ é aqui absolutamente essencial.

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