“Para Young, a meritocracia não era um ideal ao qual valesse a pena aspirar, mas uma receita para a discórdia social. Décadas atrás, soube vislumbrar a dura lógica meritocrática que hoje envenena a nossa política e instiga a fúria populista. Para aqueles que se sentem prejudicados pela tirania do mérito, o problema não é apenas a estagnação dos salários, mas também a perda de estima social.” (Michael Sandel, 2022, “A Tirania do Mérito – o que Aconteceu ao Bem Comum?”, pp. 40 - 41).
Pode ser que antes da formal rutura do liberalismo com o privilégio pelo nascimento a existência de uma residual “mobilidade social” (carreira eclesiástica) não pusesse em causa a rigidez estrutural do Antigo Regime, tida como produto da vontade divina. Podendo até suceder que o prémio que ela representava (dos muitos dotes postos ao serviço da comunidade e da sua fundacional relação com o transcendente) servisse mesmo de escape às tensões que tal rigidez pudesse provocar.
Não me parece é que, apesar da mudança de protagonistas, o liberalismo tenha de facto rompido com os estigmas da origem social, ao imaginar-nos, como ‘indivíduos’ (isolados de qualquer contexto), a competir num pressuposto pé-de-igualdade. E se semelhante ‘abertura’ veio facilitar a progressão social dos mais ‘capazes’, veio igualmente sugerir (ou tentar confirmar) a suposta equidade daquela competição. E, nessa ilusão, tornar mais aceitável a continuidade de uma certa gratificação pelo nascimento (DEBITA NOSTRA CCLI).
Assim, a negação do social, o ‘culto da individualidade’ e o ‘síndroma do individualismo’ em que, bem acima do pescoço, nos atolámos, não serão meros adereços de uma atraente modernidade, mas a (sub)stância ideológica de um caminho que, mais ou menos fatalmente, aceitámos percorrer.
Tanto mais quanto este ‘indivíduo’, protagonista único tanto dos nossos êxitos como dos nossos fracassos, nos permite, por exclusão, isentar da responsabilidade dos inúmeros problemas sociais e globais que nos perturbam, um supranumerário sistema. (Seria aliás interessante, a este propósito, rever toda a literatura sobre o desastre social em que a fogosidade matricial do liberalismo de imediato mergulhou as incipientes democracias liberais – Questão Social).
Ora, é neste contexto que importa situar a oportuna premonição (1958) de Michael Young sobre as consequências da meritocracia, como “receita para a discórdia social”, tendo embora em conta como se quis basear na premissa de uma perfeita igualdade de oportunidades. Já, sessenta anos volvidos, Michael Sandel não poderia deixar de registar como a meritocracia se insere numa certa forma de recompensa pelo nascimento, com algumas expressões autocaricaturais. Tal é o caso em que, dado o valor de mercado que o próprio “mérito” atingiu, ter passado a ser muito bem pago, como requisito de entrada, em algumas das universidades norte-americanas (pp. 17 -24).
Mais significativo, porém, é Sandel “vislumbrar”, na linha de Young, como ela “instiga a fúria populista”.