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Crónica: Debita Nostra CCLIII

Luís Costa - 06/02/2025 - 9:00

“Numa altura em que a raiva contra as elites levou a democracia à beira do abismo, a questão do mérito assume uma urgência particular. Precisamos de esclarecer se a solução para a nossa política turbulenta é ser ainda mais fiel ao princípio do mérito ou se devemos procurar um bem comum para além da seleção e da competição.” (Michael Sandel, 2022, “A Tirania do Mérito – o que Aconteceu ao Bem Comum?”, pp. 24).

Foi da sua dívida para com o ‘individualismo’ teórico e metodológico, herdado do liberalismo, que a “meritocracia” ganhou uma obsessão pelos desempenhos individuais, agora libertos de qualquer tributo ao grupo social de pertença e dos “custos de contexto” a que ele obriga.

Mas o ‘mérito’ que, ‘livre’ de tais custos, apenas individualmente se consegue, também só individualmente se não alcança, (des)carregando no ‘individuo’ o inteiro ónus daquilo que ele pode ou não ‘merecer’. E fazendo do atual ‘culto da individualidade’ a pedra angular de toda uma discreta, mas ambiciosa, construção ideológica. (DEBITA NOSTRA CCLII).

É que, a partir do momento em que esse ‘mérito’ ganha uma (re)conhecida valia social e, com ela, se incrusta nas práticas correntes, passa a ser o imediato pretexto para a espontânea formação de uma sobrevalia, ou sobranceria, que nem precisa de ser assumida para ser eficaz. Sobretudo quando, na ânsia por uma indisputável hegemonia, o seu viço (ideo)lógico a branqueia e reveste de tão intocáveis quanto florescentes rebentos tecnocráticos (Sandel, pp. 130-132).

E o reverso da medalha é, por norma, a latente frustração dos que, interiorizada a sua individual ‘(des)capacidade’, ficam assim à ‘mercê’ de tão fatal veredito. E tolhidos de (re)clamar por qualquer desejável (re)conhecimento, já que o que deste modo (ob)têm é o que ‘naturalmente’ decorre do seu ‘natural(izado) demérito’.

Ora, é deste ‘demérito’, da sua reativa (sobre)carga e da consequente “raiva contra as elites” que Sandel se ocupa, centrado no contexto que melhor conhece, que é o das vitórias de Donald Trump nos EUA. Num texto que não só reinvoca as premonições (1958) de Michael Young sobre os “efeitos perversos” da meritocracia, como lhes destaca o visionário contributo para o mais recente desenvolvimento do populismo.

É certo que os “vencidos da globalização” têm muito mais razões de queixa. E não seria de esperar que a promovida adição a uma ocidental “desindustrialização” não acarretasse, para além da ‘oportuna’ estagnação dos salários, a menorização social de quem os (não) recebe. E os seus “abismais” efeitos sobre as nossas democracias...

É que aquela humilhante regressão estatutária dificilmente poderia morrer solteira e ficar-se pela consequente interiorização do fracasso, e decorrente autodesvalorização, sem interpelar o sistema político que lhes dá guarida.

E a “seleção” das “elites”, pelo respetivo desempenho individual(ista), numa “competição” apontada ao ‘valor de mercado’, também não favorece qualquer governo da ‘pólis’.

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