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Crónica: Debita Nostra CCLIV

Luís Costa - 20/02/2025 - 9:00

“É bom encorajar mais pessoas a frequentar a universidade. É ainda melhor facilitar o acesso à universidade para os estudantes de meios modestos. Mas como uma solução para a desigualdade e para a situação dos trabalhadores que saíram a perder nas décadas de globalização, a ênfase unilateral na educação tem tido um efeito prejudicial: erodiu a estima social concedida àqueles que não tinham frequentado o ensino superior. (Michael Sandel, 2022, “A Tirania do Mérito – o que Aconteceu ao Bem Comum?”, pp. 107).

Dificilmente se poderão compreender os “efeitos perversos” da meritocracia, e o seu contributo para a difusão do mais recente populismo, sem uma referência ao processo de escolarização e a como ele se (in)screve no ‘espírito do tempo’, um hegemónico ‘culto da individualidade’.

E se tal empenho na (re)negação do ‘social’ (DEBITA NOSTRA CCL a CCLIII) nos foi corroendo o sentido gregário e varrendo da corrente sociabilidade o fito de um bem-comum, veio também refletir-se no modo como equacionamos a relação entre educação e desenvolvimento.

Isto é, na forma como equilibramos a legítima procura da mobilidade social através da escola e a aposta na preparação da generalidade da população. E como a perceção da possível “distinção social” pela escolaridade (individual) nos distraiu do propósito de um mais eficiente apuramento do mérito, pela otimização escolar de todos os nossos recursos sociais. Num afã que se espelha na desproporção com que hoje se paga o ‘mérito’, em algumas universidades (DEBITA NOSTRA CCLI), e que não deixa de concitar as nossas melhores preocupações familiares.

Neste contexto, o valor de mercado atingido pelo reconhecimento académico apenas traduz a sua importância como fator de “distinção social”.

Ora, como se sabe, a “distinção social” através da escola, ou qualquer outro meio, só se consegue pela raridade. O que nos conduz à progressiva desvalorização social dos níveis de escolaridade que se vão massificando e a que, como a linha do horizonte, a escolaridade socialmente relevante se vá de nós afastando na medida em que dela nos tentamos aproximar (Pierre Bourdieu).

Assim, a dita “ênfase unilateral na educação” não veio apenas “prejudicar” quem não tinha “entrado no ensino superior”, como refere Sandel, mas também muitos dos que lhe franquearam as portas, na sua estratégia de mobilidade. E na das respetivas famílias, já que do investimento feito na “geração mais bem preparada” pouco proveito podem ter tirado. Confirmando, deste modo, em contramão, uma inusitada regressão geracional.

E pode mesmo acontecer que, para sua frustração, a (a)firmação do ‘desejo’ político de mais escolaridade não passe da tentativa de (con)firmação da superioridade “moral” de quem já a detém, (re)endossando a “desigualdade” (social), neste campo, para a esfera do ‘mérito’ individual (T. Frank, “Listen Liberal – or What Ever Happened to the Party of the People”, 2016, pp. 34).

(Des)prevenindo’ qualquer populismo...

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