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Crónica: Debita Nostra CCLIX

Luís Costa - 02/05/2025 - 9:00

“Perdi também amigos argentinos naquela carnificina (...) na fronteira com Gaza (outubro de 2023). E depois, àquele desgosto, àquela barbárie, juntou-se uma outra, enorme, causada pelo raides israelitas: dezenas de milhares de mortos inocentes, em grande parte, mulheres e crianças, centenas de milhares de deslocados, de casas destruídas, de pessoas a um passo da penúria.” (Francisco, “Esperança – a autobiografia”, pp. 287).

Se é difícil compreender o relativismo moral das nossas sociedades fora do contexto de um geral ‘síndroma do individualismo’ e da progressiva erosão da forma democrática de coesão social, também não é de crer que ele se possa superar contrapondo-lhe simétricos relativismos (DEBITA NOSTRA CCLVIII). Nem as breves amostras de sociedades de outro tipo, construídas em bases mais identitárias (de classe ou outras), se têm revelado particularmente promissoras.

O que só dá relevo às disposições que a propósito da paz, ou demais preocupações, se não perdem em meros ‘estados de alma’, como o de pretensas “miss universo”, mas se empenham na busca de soluções não sujeitas a uma espontânea dicotomia moral.

Atitude que, na autobiografia de Francisco, se funda numa grande empatia em relação às vítimas de múltiplos conflitos, como o que culminou em Hiroxima e Nagasáqui ou se desenvolveram no Vietname e Afeganistão. E se estende às mais ‘discretas’ guerrilhas e massacres, que se vêm perpetuando pelo Oriente (extremo e próximo) e em África, de que nos chegam inúmeros refugiados.

Mas que não esquece as sequelas da colonização, os seus “povos originários”, nem os imigrantes que procuram o sustento da família, nem as vítimas das leis do ódio e raciais e a condescendência com campos de concentração. E ainda as diversas minorias e periferias, mas também a condição que é a de muitas mulheres e os jovens nas suas correntes frustrações.

Uma experiência ganha na solidariedade com os perseguidos e mortos pela ditadura argentina, no estágio do trabalho numa fábrica e no convívio multirreligioso, espiritual, cultural e desportivo que o “caleidoscópio de etnias” de um bairro de Buenos Aires proporcionou. E que não esconde a matriz de uma “opção preferencial pelos pobres”.

Em suma, a adoção do lema, mas sobretudo da ‘praxis’, do “todos, todos, todos...” que tem em conta que a humanidade não é apenas a soma das suas partes, e muito menos o ganho de uma sobre as outras, mas ‘lugar’ de procura de uma (sobre)vivência em comum. Em cuja amplitude, porém, não se pode “negar conflitos”.

Como os que envolvem “os mais brutais bombardeamentos” onde “o povo ucraniano não é apenas um povo invadido, é um povo mártir, perseguido já nos tempos de Estaline com um genocídio por fome, o Holodomor, que causou milhões de vítimas” (pp. 283).

E em que a ‘última’ palavra até veio a caber ao brutal extermínio do gueto de Gaza.

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