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Crónica: Debita Nostra CCLVI

Luís Costa - 20/03/2025 - 9:00

“O forte conteúdo social e político desta forma de ignorância agressiva é evidente, e o seu papel no populismo essencial. Ela dá a quem não tem poder nenhum a falsa ideia de que o tem, porque não precisa de ler um livro para o comentar, não precisa de um argumento racional, basta-lhe um meme, ou algo que seja viral, não precisa de esforço nem atenção, basta-lhe a sensação de empoderamento que vem do insulto e da vingança, e com um telemóvel em frente está sempre distraída, não precisa do mundo” ... (Pacheco Pereira, PÚBLICO, 11-01-25).

Seria certamente abusivo atribuir as marcas do presente populismo aos entorses do processo de escolarização e, sobretudo, endossá-las a todos os que, por desencontro pessoal ou social, de algum modo se incompatibilizaram com a escola.

Não pode é esquecer-se o seu contributo para o duplo descontentamento de que fala Sandel (2022), a propósito da meritocracia, ou porque esta renegou as suas promessas, ou porque por elas se foi preterido numa vã procura de mobilidade social.

Como também seria redutor menosprezar o impacto desta noção de ‘mérito’ que, na obsessão pelos desempenhos individuais, não só ignora o seu vínculo a diferentes meios sociais, como os “custos de contexto” a que ele inevitavelmente obriga. Cumprindo o estabelecido preceito liberal de que, por abstrato decreto da liberdade, tudo a todos se (pre)supõe acessível, para inteiro benefício dos que lhe são mais próximos (DEBITA NOSTRA CCLII a CCLV).

E se é certo que aquelas distintas vivências nos desobrigam de determinismos sociais, também é claro que, nos seus efeitos, elas se não restringem ao campo das frustrações individuais, nem a um único modo de se lhes reagir.

Não sendo de aqui excluir a geral “perceção” de que o que à democracia escapa de meritocrático nela se recupera em arrivismo político, proactivamente escolarizado. Nem tanto pela sua ab(red)undante expressão casuística, mas pela normalização, ou sobranceria, da conceção (pré-republicana) que lhe subjaz: a de que ao poder há de corresponder o privilégio (privu+lege).

E ainda que passiva, (con)tida, ou (sus)tida como “fogo” sempre pronto a atear, nem por isso a aversão a tal ‘política’ se desencontra da (atr)ação pelo dito privilégio, da deslumbrada prospeção dos poderes (pessoais) e do valor modal dos seus maneirismos.

Assim, numa sociedade em que se desve(n)dou o primado do poder e o consequente relativismo moral, de extração liberal, que hoje se terça no principal púlpito das relações internacionais, não é de estranhar o seu provincial mimetismo.

A que o processo (peri)escolar, contrapondo às aprendizagens formais, e à ‘letra-morta’ da memorização, alguns ‘alegres’ e (in)tolera(veis)dos rituais de (pre)potência, dando “a quem não tem poder nenhum a falsa ideia de que o tem”, também prestou o seu (con)tributo.

Arrastando, na onda, tudo o que ‘cheire’ a ciência ou academismo...

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