“Confesso a minha total perplexidade com esta posição (sobre a guerra na Europa e o ‘belicismo europeu’) e recorro a Edgar Morin: ‘Vi pacifistas de esquerda converter-se a Vichy, vi socialistas convertidos a uma Europa nazi que pensavam ir ser socialista’. Mas muitos, como o próprio Morin, abraçaram a resistência e a causa da dignidade humana – e esta é a hora de seguirmos o seu exemplo.” (Álvaro Vasconcelos, PÚBLICO, 17-03-25).
Será difícil compreender a atmosfera de relativismo moral que hoje se ‘respira’, na cena política internacional, fora do contexto do ‘culto da individualidade’ que, desde o séc. XVIII, se desenvolveu nas nossas sociedades, e da sua degenerescência num ‘síndroma do individualismo’.
E se este foco no ‘indivíduo’ nos facultou a ocultação dos diferentes ‘possíveis’, plasmados na sua origem social, e a ilusão de uma satisfatória igualdade de oportunidades, veio igualmente (dis)trair-nos (d)a noção de comunidade e de que o ‘social’ se não restringe ao conjunto dos suas partes (DEBITA NOSTRA CCXXXVII a CCXLIII).
Reduzindo a democracia ao apuramento de uma (anómica) soma do ‘individual’, a dita “vontade do povo” de que o “iliberalismo” tão bem sabe tirar partido, mas ignorando como o processo democrático se desenrola, ele próprio, no seio das relações de poder que se propõe regular (Schumpeter). E omitindo como, neste mesmo contexto, ele não dispensa ser ‘jogado’ sobre o tabuleiro (denominador) de um sensato e a(con)cordado “bem (comum)”.
Deste modo, deixado à concorrência e indomável produto de privadas capacidades (poderes), dificilmente ele não viria a sugerir relativismos, a redundar numa distorção do primado da lei e na disfarçada ou normalizada lei do mais forte. Tanto mais, quanto, nesta disputa, a própria ‘verdade’ se dirime entre “factos alternativos” e na ‘destreza’ em os ‘torturar’, concentrar e canalizar para uma ‘adequada’ (in)formação (DEBITA NOSTRA CCXLVI). Erradicando, assim, já que se não pode optar pelo que se não (re)conhece, qualquer centelha de uma possível coesão social e, consequentemente, o pluralismo de que a própria democracia se sustenta.
Ora, red(con)uzida esta à mera disputa dos poderes fáticos, ela passa a (con)centrar-se na arena do poder/contrapoder e na convicção de que nunca de lá saiu. E, em perfeita simetria, a desenvolver um outro sentido de (i)moral que anda a reboque de quem o pratica, do lado em que se está ou se pretende favorecer, carreando, embora, bizarras convergências. Mas ganhando na absoluta convicção de que está do lado certo o que se perde em (a)tração política, já que, também aqui, com um tão perentório relativismo moral dificilmente se sustentam sociedades rotinadas no pluralismo.
Pode então o pacifismo revelar-se como uma posição historicamente intermitente, em que nos intervalos da legitimação de muita luta armada, surgem guerras em que se não quer que nenhum dos beligerantes ganhe.
Mas tão só que um deles perca!