Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita Nostra CCLX

Luís Costa - 15/05/2025 - 15:59

“Sempre fui um inquieto da política, sempre. (...) Porém, foi, sobretudo, a minha primeira reação manifesta em defesa dos pobres. Uma tensão, um aspeto do social que em seguida procurei e reencontrei cada vez mais na Igreja, na sua doutrina que nos interpela para que lutemos contra todas as formas de injustiça, sem nos deixarmos arrastar nem pela colonização ideológica nem pela cultura da indiferença.” (Francisco, “Esperança – a autobiografia”, pp. 150-151).

Creio que o lema do “todos, todos, todos” ..., enquanto marca estruturante do pontificado de Francisco, radica numa experiência de vida de que o próprio nos quis deixar testemunho nesta autobiografia. Uma praxis de compromisso com a humanidade que a não vê na soma das suas partes, ou no ganho de uma sobre as outras, mas como ‘lugar’ de procura de uma (sobre)vivência (em) comum (DEBITA NOSTRA, CCLIX).

E que, na insurgência “contra todas as formas de injustiça”, não se limita às baias de uma qualquer rigidez ideológica, ou a perder-se pela distraída indiferença de quem, na doutrina, apenas (re)busca cultural enlevo para uma breve inquietação.

Assumindo, assim, especiais cuidados em relação à Paz, por um lado, e em relação à vida dos mais fracos (pobres, imigrantes), por outro, que demandam dos líderes “a humildade de quem foi chamado a tecer tramas de convivência”. Ao invés da “arrogância” com que “não poderão conduzir o seu povo à paz, à justiça e à prosperidade” (pp. 43).

Ora, quanto à primeira, na senda da experiência do avô Giovanni (1.ª Grande Guerra), vem lembrar como as relações entre os estados, visando a cooperação, não devem ser reguladas pela força armada. E que os interesses de todos os impérios não podem “uma vez mais” ser postos à frente das vidas de centenas de milhares de pessoas.

Mas sem “negar”, “esconder”, “ignorar” ou “marginalizar” os conflitos, uma vez que o resultado seria o “agravamento das injustiças, do mal-estar e da frustração”. E sem confundir “agressor e agredido” ou negar o “direito à defesa”, na convicção, porém, de que “a guerra nunca é inevitável e que a paz é sempre possível”.

Já, quanto aos segundos, na memória do filho e neto de imigrantes ressalta a despreconceituosa convivência. Como no desporto, onde, quando “todos juntos a domar uma bola, não importa como te chamas, de quem és filho, de onde vens” (pp. 109). Contrapondo à instintiva atitude de rejeição do diferente, a de “pensar em todas as crianças como nos próprios filhos”, “antídoto para a desumanização”.

No pressuposto que já fora o da “avó Rosa” (pelo impacto que a seu tempo teve a “Rerum Novarum” de Leão XIII): “uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, que dê prioridade à vida de todos em relação à apropriação dos bens por parte de alguns (pp. 214).

COMENTÁRIOS