“A aceitação da inevitabilidade passou a servir como uma espécie de muleta do nosso discurso político no século XXI. (…). Algumas vozes apontaram críticas ao ‘neoliberalismo’, isto é, à noção de que o mercado livre terá de certa maneira tornado inviáveis outras formas de mercado. Isto é um facto, mas o próprio uso da palavra servia geralmente como uma espécie de obséquio diante de uma hegemonia irreversível.” (Timothy Snyder, “Sobre a Tirania – vinte lições do século XX”, Yale, 2017, pp. 100-101).
A interpelação de F. Mendes da Silva, ao último 10 de junho, sobre a capacidade de a democracia “combater no campo intelectual os seus novos inimigos” e a importância de nos convencer de que não “esgotou ainda as suas promessas de progresso” (PÚBLICO, 13-06-2025) não me parece descartável. Sobretudo pelo seu entendimento de que “as maiorias políticas transformadoras são sempre construídas com base em promessas de transformação”, e ainda porque “tudo isso é verdade, mas apenas parte da verdade”.
Haverá agora que saber o que é pretendemos transformar e se disso se pode excluir o que até aqui nos trouxe: o impressivo carácter do neoliberalismo, hegemónico vai para quarenta anos.
Tanto mais quanto ele se tenha como ‘intocável’, ou por a-histórica soberba, ou pela (o)usada ‘ignorância’ de que as “promessas de transformação” sempre implicam as relações de poder existentes (Max Weber). Ou, ainda, pela agradecida ‘indigência’ das formas políticas que se lhe opõem (DEBITA NOSTRA CCLXVII), nomeadamente as que não deixam de lhe fazer “uma espécie de obséquio”.
Estaríamos, assim, perante um “inevitável” mercado que, de há muito, rejeitou o “tipo ideal” de relação entre iguais, com que Adam Smith o concebeu, omitindo as ditas relações de poder. E que, por essa ilusão, se converteu, de expedito processo de utilização do dinheiro para a troca de bens, em instrumento da ancestral ambição de uso do dinheiro para fazer mais dinheiro (Fernand Braudel).
E que nessa (con)fusão, a que, por interesse ou oposição, se conformou, foi erigido em ídolo de uma tal devoção que não evita a absoluta fé no seu poder milagreiro, que a tudo resiste, mesmo quando se ‘queima’. E que, ao tudo colocar nas suas mãos, ainda que invisíveis, sobreleva o económico, desobrigando-nos, simples mortais, de uma qualquer estratégia política.
Crença legítima que assim ganha em força o que perde em inocência, pelo ‘pecado original’ do liberalismo: é na sua ‘ignorância’ que o poder mais bem se move, denotando como tal recusa estratégica não é neutra, já que ‘joga’ a favor de quem o detém.
foi por esta “política da inevitabilidade” que se ‘chegou’ a um passado, “vasto e nebuloso pátio repleto de monumentos irreconhecíveis, erguidos à vitimização nacional” (Snyder, pp. 102), uma “política da eternidade”.
E que, em termos de “eternidade”, também não anda sozinha!