“Mas não são os problemas reais da imigração, que são problemas de governação, sociais, religiosos e culturais, que tornam os imigrantes o centro de um discurso populista, racista e nacionalista, é outra coisa. E é essa outra coisa que permite a comparação com os anos trinta. (…) Como os judeus na Alemanha nazi, eles são estruturalmente criminosos e não devem poder “misturar-se” connosco, seja pelo sangue, seja pelo território, seja lá como for, com o interessante silêncio sobre “misturar-se” no trabalho, nas estufas com 50º graus, ou nas bicicletas com mochilas de comida.” (Pacheco Pereira, PÚBLICO, 20-09-2025).
Não vejo nesta análise (supra) qualquer determinismo, como seria o do entendimento de que a História anda por aí a repetir-se. Apenas a constatação de que, em períodos de crise, tendemos a eleger “bodes expiatórios” e de que tal ‘escolha’ recai, invariavelmente, sobre os ‘diferentes’.
De resto, recorrendo a ‘mecanismos’ instintivos que nos ‘ditam’ que, ao relativizar aquilo que somos, na sua plenitude, o ‘diferente’ se constitui como ameaça ao que temos de mais vital, a nossa identidade. Prestando-se, deste modo, a empoláveis e exploráveis perceções de insegurança.
Ora, nada melhor que estas constatações empíricas para interpelar ideologias, não na sua conceção canónica (visões do mundo), mas na ademocrática versão que as menospreza e pretende identificar com o pensamento dos ‘outros’ por contraposição ao seu.
O que me permite sugerir que o presente debate sobre Imigração, colocado em facilitá-la ou dificultá-la, se presta a um duplo efeito de ocultação.
Por um lado, esconde aquela instintiva repulsa, ao derivá-la de uma improvável “estrutural criminalidade” (como quando, nas críticas à atual norma ortográfica, não se visa melhorá-la, mas tão só recusar qualquer “Acordo” que lhe subjaza).
Por outro, e como agravante, disfarça a completa ausência, ou oposição, a uma política de integração em relação aos imigrantes de que necessitamos. Quer para compensar défices demográficos, quer para incremento da economia, quer para alívio da (sobre)carga fiscal, quer para sustento da Segurança Social.
E é assim que 8,2% deles, com menos de 17 anos, estarão a mais nas nossas escolas e que os 85,5% em idade ativa podem ser discriminados no acesso à família e aos cuidados dos sistemas de saúde e proteção social (sob o mito de que somos seus contribuintes antes de seus beneficiários, quando deles usufruímos desde o período pré-natal).
Acontece, porém, que atuamos à revelia da tradição judaico-cristã, que supostamente nos inspira, no seu trato com os órfãos, as viúvas e os estrangeiros, pela sua instante vulnerabilidade (DEBITA NOSTRA CCLXXI). Já que mais não seja “porque também foste estrangeiro no Egito” (Ex. 22, 21), ou em muitos outros lugares (DEBITA NOSTRA CCXXX, CCXXXI e CCXXXII).
Mas também, menos pragmaticamente, da atualização que dela fez o cristianismo na sua “opção preferencial pelos pobres” (vulneráveis).