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Crónica: Debita Nostra CCLXXVI

Luís Costa - 23/12/2025 - 9:01

“Pelo contrário, é precisamente a consideração dos direitos objetivos do homem do trabalho (…) que deve constituir ‘o critério adequado e fundamental’ para a formação de toda a economia, tanto da economia de toda a sociedade ou Estado, como do conjunto da política económica mundial. (...) Nesta ordem de ideias, deve realçar-se que (…) é necessário organizar e adaptar todo o processo de trabalho, de tal sorte que sejam respeitadas as exigências da pessoa e as suas formas de vida” … (João Paulo II, Laborem Exercens, pp. 60 e 67).

Perguntem à árvore qual a mais estável: a de grande porte que cede à força de uma qualquer tempestade, ou a que se flete e preserva na expectativa da próxima bonança.

É claro que flexibilidade e estabilidade se conjugam e que decisivo, no “processo de trabalho”, é o “critério adequado e fundamental de toda a economia” e a conceção de empresa que lhe subjaz. Entendida como um todo que se ajusta e perdura ao longo do tempo, ou como arena onde se disputa a produtividade na sua (desigual) afetação.

Conceção vulgar que, não me parecendo decorrer do “marxismo cultural”, ou da “decadência” em que alguns veem mergulhar a Europa, nem por isso será menos ideológica. Não tanto porque a precipitação com que se decretam ‘novas’ legislações laborais, revolvendo águas serenas e favoráveis marés, denuncie uma impetuosa cartilha. Mas por bem mais profundas razões.

Perguntem ao trapezista qual é o responsável, o que avança entregue ao equilíbrio, ou o que usa uma rede para sua proteção e a dos seus. Não, ousadia e segurança não são incompatíveis e o que hoje se cultiva, no dizer de que “muitos jovens nem querem estabilidade e gostam de mudar”, são meras “perceções”. Que denunciam ao que se vem, invertem o ónus da prova e, prestidigitando futuros salários, persistem no êxodo juvenil.

O que me lembra a ideia, tão antiga quanto o séc. XVIII, de que bastaria simular (decretar) a liberdade para que se esquecessem as relações de poder, no convencimento de que todos concorremos em pé-de-igualdade aos diversos contratos, como o de trabalho.

E que, desprotegido este, se caiu no maior desastre social e convulsão política que as nossas sociedades alguma vez conheceram, ao arrepio da “modernidade”. Até por obstáculo à “destruição criativa”, de que falaria Schumpeter (1942), já que o défice dos fatores materiais, na produtividade das empresas, era compensado pelo fator humano, levado à exaustão.

Visão materialista e depreciativa do valor e “prioridade do trabalho” como “causa eficiente” de toda a produção (Laborem Exercens, pp. 41). Contra cuja redundância se insurgiu um “modelo social” de inspiração democrata-cristã e social-democrata, a demonstrar como nada aqui havia de ‘exigências’ da “Revolução Industrial”.

E será mesmo o ‘precariado’ um “moderno” imperativo da atual “Revolução Tecnológica”?

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