“Mas os povos vizinhos servem-se delas (máquinas) e não se pode sustentar a concorrência sem as empregar também. Doutro modo, os trabalhadores ficariam desempregados. Para eles a questão é esta; nenhum trabalho, ou trabalho nas mesmas condições dos trabalhadores das outras regiões. Para os fabricantes, é: cessar todo o fabrico para não se arruinarem, ou enriquecerem sustentando a concorrência estrangeira pelos mesmos meios de produção.” (Louis-René Villermé, Estado físico e moral dos operários, 1839, pp. 97).
É evidente que a ‘verdadeira’ razão da convulsão social e política designada por “Questão Social” não foi a “Revolução Industrial”, nem o seu elam modernizador, como a consequente subversão político-partidária veio demonstrar. Nem, certamente, uma pulsão punitiva que, de súbito, se tenha assenhoreado dos seus “fabricantes”. Foi sim a ‘forçosa’ competição pelas (mínimas) “mesmas condições dos trabalhadores das outras regiões” como alternativa a “nenhum trabalho”. Ou seja, o “poço-sem-fundo” da conveniente ‘desvalorização’ do trabalho que, no seu desequilíbrio e dinâmica própria, só podia ter chegado onde chegou.
Pelo que a questão aqui não é tanto a da competição, quanto a do tipo de competitividade, já que, a crer em Villermé, fora a própria introdução das máquinas que levara à ‘exorbitante’ duração da jornada de trabalho, para ‘compensar’ a ‘folga’ que a mecanização permitia (DEBITA NOSTRA CCLXXVII). Mostrando como, por oportunismo, se pode querer casar a modernidade com pretendentes muito mais ‘velhos’.
Destaca-se, então, a importância do ‘espírito’ (ideologia) com que se decide sobre tal matéria, sabido como bem se distingue o que fazemos por ‘devoção’ do que somos compelidos a fazer. E, atendendo a que foi em empresas tecnológicas de ponta que melhor se conseguiu substituir o ‘espírito repressivo’ pelo ‘espírito’ de “colaboração”, disponhamo-nos a ser mais minuciosos sobre a confusão que se estabelece entre precariedade e modernidade. Bem como no apuramento daquilo a que o atual contexto nos obriga.
E este é o de um declínio da ‘ordem internacional neoliberal’, no que ela significa de universal abertura de oportunidades, mas também de omissão das subjacentes correlações de força, em que se esteia a própria competitividade. No fundo, o ferrete de marca do liberalismo, no seu ‘entendimento’ de que é de ambas que o poder melhor se legitima e sustém.
Puderam assim os E.U.A. dosear o seu “big stick”, enquanto o discreto “capitalismo asiático” foi ganhando pujança, sem os custos da democracia e no uso de um hábil “dumping” social. Ao ponto de agora os confrontarem na sua ‘delicadeza’ e, â cautela, os levarem a propor distribuir-nos por três grandes “esferas de influência”.
E nós, no regalo dos ‘preços’ que nos permitiriam ‘subir na vida’, mas indiferentes ao ‘preço’ da (difusão da) democracia, lá fomos entrando na mesma lógica. A que agora nos desafia a ‘descer na vida’ se queremos efetivamente ‘subir na vida’.