Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita nostra CCLXXX

Luís Costa - 19/02/2026 - 9:00

“A derradeira pergunta ainda não tem resposta: quem conseguirá travar Donald Trump? A minha aposta vai para os americanos, mas não sei. Ninguém sabe. Entretanto, a única certeza que talvez possamos ter é que Trump está a acelerar o declínio relativo e inevitável da superpotência americana. E isso também não é bom.” (Teresa de Sousa, Público, 25-01-2026).
Em relação à nova ‘(des)ordem internacional’, não deixa de ser relevante a complacência com que foi acolhida a ‘discreta proposta’ de Trump de demarcação de três “esferas de influência”, que lhe acautelem ‘imperiais’ pretensões, e o manifesto ‘despropósito’ em “travá-lo”. Quer pela ‘espera’ feita ao “declínio relativo e inevitável da superpotência americana”; quer pelo que dá de garantias a outros mais recalcados ou emergentes imperialismos; quer pelo que isso implica de cerco às inconsequentes, mas irredutíveis, democracias europeias. 
Sugerindo-nos uma oportuna revisão de tradicionais arrumações geopolíticas e uma “derradeira pergunta” sobre o eventual ‘nuclear’ papel dos “americanos”.
E é aqui que os ‘moldes’ do inerte estruturalismo que divide o mundo por dois hemisférios, onde ‘emala’ as forças do “bem” e do “mal”, o tornam contraditoriamente obsoleto, ainda que crente nas ‘eternas virtudes’ científicas do positivismo novecentista. Sobretudo quando distingue as nações entre as que têm “povo” e as que o não terão (Ucrânia, Palestina, Irão) com o nefasto resultado de um enviesado relativismo moral (DEBITA NOSTRA CCLVIII).
Assim em países que um dos próprios inspiradores, Friedrich Engels, elogiava como democracias, já que “a representação popular concentra nas suas mãos todo o poder e onde, pela via constitucional, se pode fazer o que se quer, desde que se conte com a maioria do povo”. Destacando os EUA como exemplo de “como se deve organizar essa autonomia e como se pode prescindir da burocracia” (Crítica ao programa de Erfurt, 1891).
É certo que o fazia no encalce de uma ‘vantagem’ para o proletariado e ignorando o esclavagismo. O que, à época, já não seria muito tolerável (Beaumont, companheiro de Tocqueville na sua visita e ‘encanto’ com a democracia americana (DEBITA NOSTRA CCLXXIX), não deixara de o verberar 60 anos antes). 
Atitude que se compreende à luz de um “materialismo histórico” (em que o protagonismo dos escravos ou dos proletários representa o passado e o futuro, respetivamente), mas que destaca o inconveniente dos esquemas teóricos que se antecipam à análise, em concreto.
Inconveniente que, por esta mesma fixação e reverso descuido do “povo”, em geral, se mostrou incapaz, nos anos 30 do século passado, de compreender o corrente surto de nacionalismos e o (des)empenho’ do prevalecente “povo” (Paul Mason, 2021). E que agora, que o próprio proletariado se esfumou numa estratificada miríade de assalariados, foi bem capaz de reincidir com os indiferenciados excluídos da globalização.
E porque não perante a capacidade de “travagem” dos ditos “americanos”?

 

COMENTÁRIOS