“O respeito pelos direitos humanos, e pela lei, tem de ser exigido a todos os que residem em Portugal, sejam nacionais ou estrangeiros, descendentes de imigrantes de tempos tão longínquos que pensam ser autóctones de gema, ou imigrantes recentes. Como não são respeitáveis ideias que tribalizam a sociedade, contrariando um dos requisitos do pluralismo cultural, a individualização, e clamando pela sobreposição entre cultura e comunidade.” (Rui Pena Pires, Público, 28 de janeiro de 2025).
Bem pode o “wokismo” ser uma sequela da ‘tradição’ que privilegia o “conflito” como ‘motor’ da mudança social, elegendo agora como “vanguarda” a heterogénea “lista dos dominados” que se “identifica” como “vítima de opressão” e relegando anteriores ‘indigitados’ protagonistas (DEBITA NOSTRA CCLXXXII).
Ou simplesmente ser a expressão de um ancestral conflito (dominação/subordinação), agora atiçado por ‘novos’ contextos multiculturais que ganharam palco no ‘velho continente’, mais afeito à expansão e ao predomínio cultural. Ou acirrado pelas rotinas da atual distribuição económica, e vassalagem financeira, propícias a costumeiros problemas, como o das “casas onde não há pão” …
De qualquer modo, catapultando para o debate sobre a mudança social o tema das identidades e de como elas, pela sua particular consistência (moldada no entrelaçado do individual e do social) se protegem e resistem. ‘Preferindo’, no conflito, enquistar-se em redutos defensivos pouco permeáveis, predispostamente incompatíveis e antagónicos.
Sem que, por isso, deixem de, aqui ou ali, despontar alguns exemplos de como a inevitável proximidade, a sugerida convivência e, sobretudo, um (re)conhecimento mútuo, acabam por derrubar tão espontâneos alçados e instintivas animosidades. Geralmente sustentados num partilhado “respeito pelos direitos humanos, e pela lei” e eventualmente potenciados por uma reconhecida complementaridade ou cultivada (ad)miração.
Só que, nestes casos, negando realce às (extra)vagantes características pessoais, ou a um particular exotismo, e, evitando a ‘privatização’, atribuindo-os a outras gerais coerências, a diferentes “comunidades” de sentido.
Pelo que será precoce uma forçada dissociação entre “cultura e comunidade”. Nomeadamente se esta, como o próprio “wokismo”, se render, pela “individualização”, àquele pouco inocente ‘culto da individualidade’ que, desde o séc. XVIII nos assola. E acabou por se caricaturar na ‘desejada noção’ (wishfull thinking) de que “a sociedade não existe”.
É que esta, a existir, não se esgota na contratação jurídica de um conjunto de direitos e deveres, ele próprio histórica e culturalmente inspirado, na sua ‘atual universalidade’. Não dispensando a indestrinçável partilha de uma memória coletiva e das também comuns vivências em que se esteia qualquer projeto de futuro.
Que podem ser inclusivas, mas não negligenciáveis, pelas mesmíssimas razões que tornam as demais irrecusáveis, não em particular, mas enquanto parte de ‘outras’ compósitas identidades.
Perdendo-se, assim, o “wokismo” numa possível devoção pelo ‘culto da individualidade’, sobretudo, se, em tal crença, ganhar, como alhures (EUA), todas as características de uma dogmática e intolerante seita (DEBITA NOSTRA, CCLXXXIII).