“O próprio processo de ‘submeter a terra’ (Génesis), quer dizer, o trabalho sob o aspeto da técnica, é caracterizado no decorrer da história, e especialmente nestes últimos séculos, pelo desenvolvimento imenso dos meios de produção. Tal fenómeno é vantajoso e positivo, contando que a dimensão objetiva do trabalho não tome o predomínio sobre a dimensão subjetiva, tirando ao homem ou diminuindo a sua dignidade e os seus direitos inalienáveis.” (João Paulo II, Laborem Exercens, pp. 36).
Não me parece que o imperativo da “modernidade” nos desobrigue de atender aos contributos da ‘reflexão fundamental’ ou da ‘vigilância’ de princípios básicos que nunca faltaram à humanidade, mesmo em períodos mais conturbados da sua história.
Nem a inovação que lhe está subjacente alguma vez se dispensou de procurar “pensar fora da caixa”, sem se render à imitação, na resposta a uma desenfreada concorrência que, por regra, é desigual e sobrevive bem à ausência de quaisquer pruridos democráticos. Não porque ela se possa evitar, mas pela abismal diferença que, na prática, sempre distingue o inevitável ajustamento da devotada adesão.
E, contudo, há um filão que a produtividade sistematicamente se recusa a explorar, apesar das provas dadas: a deliberada confluência entre a “dimensão subjetiva” e a “dimensão objetiva” do trabalho, por todas as formas de reconhecimento, como a de parte interessada nos respetivos resultados.
Ao invés, “especialmente nestes últimos séculos”, com provável exceção da era keynesiana do pós-guerra, a consideração do trabalho humano tem geralmente seguido num outro sentido, pondo mesmo em causa ou “diminuindo a sua dignidade e os seus direitos inalienáveis”. Em termos de prestígio e ‘solidez’ social, de valorização dos seus saberes e da correspondente compensação.
Já, quando do processo de industrialização e mecanização, se suspeita que a conhecida revolta dos “ludistas” contra as máquinas se não deveu unicamente à consequente rarefação dos postos de trabalho. Sendo que a indiferenciada ocupação de tais postos por mulheres e crianças terá sido por eles ‘percebida’ como uma inaceitável ‘desautorização’ social (David Graeber, “Bullshit Jobs”, pp. 234).
E que dizer do nosso já mais próximo taylorismo, da sua meticulosa observação e medição do trabalho para o expropriar de todo um saber ancestralmente acumulado e o fragmentar em pequenas tarefas eficazes, mas, em si, desprovidas de sentido?! Movimento que o fordismo refinaria nas suas ‘reflexivas’ cadeias de montagem, um rude golpe na “dimensão subjetiva” do trabalho tão bem caricaturado por Charlot em “Tempos Modernos”, naturalmente. E que se poderá sofisticar, tornando cada vez mais supérfluo muito do atual trabalho humano.
Mas nem tudo se ficou por esta consumada depreciação, com o surgimento de outras mais ‘prezadas’ tarefas, como as de planeamento, gestão e supervisão.
Nada de que uma bem perspetivada ‘modernidade’, pela sua “dimensão objetiva do trabalho” (robótica, IA, etc.), não possa vir a tomar conta.