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Crónica: Debita nostra CCLXXXVIII

Luís Costa - 11/06/2026 - 9:01

“A grande maioria dos seus lucros advém da disputa com os governos para criar, e assim vender e manipular várias formas de dívida. Tudo o que de facto argumento neste livro é precisamente que, já em muito do que o setor financeiro faz, se trata basicamente de fumo e de espelhos, o mesmo acontecendo com a maioria dos empregos, do setor-informação, que acompanha o respetivo desenvolvimento.” (Tradução livre de David Graeber, “Bullshit Jobs”, 2018, pp. 151).
O entendimento de Graeber, sobre os ditos “empregos da treta”, é o de que a sua visibilidade é particularmente ‘notável’ no setor financeiro, onde alguns dos (pre)conceitos liberais acerca da produtividade e do rigor facilmente se esbatem. Quer pela proliferação de “truques” que apenas se prestam a uma ‘artificial’ reprodução do dinheiro, quer pela impunidade de que se revestem muitas das suas ‘dolorosas’ consequências, como na crise de 2008.
E o de que, na exata medida em que tais lucros são cada vez menos derivados do comércio e manufatura e cada vez mais da dívida, da especulação e de ‘engenhosos instrumentos’ financeiros, assim também cresceu o número de trabalhadores que vive da manipulação dessas “abstrações”. E de um geral convencimento de que com tais ‘meandros’, tão complexos que “apenas podem ser compreendidos por astrofísicos, eles aprenderam, quais modernos alquimistas, a sacar valor do nada, através de meios que os demais nem sequer ousam compreender” (pp. 150).
Que ‘contraste’ com as simples e discretas ‘maneiras’ da tradicional e semiclandestina atividade da “usura” de que a humanidade sempre suspeitou, ainda quando dela se socorria. E sobre a qual, independentemente dos seus desenvolvimentos, não podemos deixar de nos interrogar: será que tão secular desconfiança era apenas fruto de uma qualquer teimosia? Ou antes o resultado de uma sedimentada sabedoria que continuará a prevenir-nos contra as persistentes formas, mais complexas e toleradas, da mesma especulação?!
O que é certo é que, depois de séculos de intermitentes e temerárias proibições, que remontam ao Código de Hamurabi (séc. XVIII a.C.), ela própria acabou por vingar com a abolição das “Leis da Usura” (Marquette National Bank of Minneapolis versus First of Omaha Service Corp. Supremo Tribunal dos EUA, 1978). 
Numa decisão que dificilmente se pode separar da sofisticada perícia na manipulação “de fumo e de espelhos” com que hoje se reproduz o dinheiro. Que continua a ser a “moeda que torna a trazer moeda”, o que já significou (Aristóteles, Política I, 8-10), um “tipo de ganho totalmente contrário à natureza” (DEBITA NOSTRA XI). 
Mas é claro que o problema não é o da mera (re)produção do dinheiro que qualquer “casa-da-moeda” poderá assegurar. É o da absoluta necessidade de o fazer passar pelo processo produtivo para lhe garantir valor. Sabendo, assim, muito bem, que não é do “nada” que o irá “sacar”.

 

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