"Regra geral, não foram especuladores aventureiros e sem escrúpulos, como os que se encontram em todas as épocas da história económica, nem simplesmente ‘grandes financeiros’ que deram origem a esta viragem decisiva (...) ... foram homens educados na dura escola da vida, ponderados e audaciosos, mas sobretudo sóbrios e perseverantes, perspicazes e inteiramente dedicados à sua atividade, professando conceções e ‘princípios’ rigidamente burgueses.” (Max Weber, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, 1905). A tendência para se assumir como depositário de uma derradeira interpretação do Tempo e guardião dos cânones da “correção política” está longe de ser exclusiva do chamado espírito “woke” e do seu empenho nas “guerras culturais” (Debita nostra CCIX).
É também lugar-comum entre aquele ‘realismo’ que, ressalvadas as contrafações que a isentam de uma real demonstração, vislumbra na atual ordem (económica) mundial o topo da civilização e um certo “fim-da-história”. Apesar dos seus inalienáveis dislates e, sobretudo, da sua insidiosa recorrência.
Sob o argumento de que se não vê melhor, mas ignorando a teimosia da História em não parar ou, mais comezinhamente, outras ‘inquietas’, se não mais democráticas, culturas. Onde persiste um sentido de ‘mundo-inacabado’ e se presta atenção ao inesperado ou ao que possa surgir das mais (extra)vagantes das ideias (Debita nostra CXVI).
Talvez na respetiva ‘desconstrução’ ganhe interesse este clássico de Weber, naquilo em que ele destaca o papel das comunidades puritanas na regulação e legitimação da pulsão lucrativa. Substituindo-se ao velho espírito “aventureiro” que se ria “das limitações da ética” e que, certamente, não se ‘evaporou’...
E suscitando, pelo rigor e frugalidade, uma nova poupança/acumulação que ultrapassaria, como aconteceu com os juros, tão legítima quanto secular desconfiança (Debita nostra XXI).
Mas não só. Criando, no apertado círculo da relação entre pares, o contexto social em que se fundariam posteriores utopias (séc. XVIII), como a de um mercado que não carece de regulação porque, supostamente, ocorre entre iguais.
Despoletando a dinâmica que haveria de romper com o Antigo Regime, exigindo a liberdade que as corporações coartavam, a igualdade que o privilégio (feudal) renegava e a fraternidade das reminiscências comunitárias. E replicando, coerentemente, a feliz fórmula de “mercado eleitoral”, que é a da (demo)cracia (Schumpeter), legitimada na aparência de que emanava do “povo”, pela persistente inércia das classificações medievais (Clero, Nobreza e Povo).
Mas, introduzindo um férreo protecionismo censitário que a imunizava da “piolheira” e, ‘naturalmente’, da “segunda metade do Céu”. Suscitando o longo, penoso e periclitante trajeto que foi o de uma mais ampla cidadania...
E que continua a sê-lo, nas crescentes dificuldades de apuramento das vontades coletivas, onde estas se foram liberalmente restringindo ao somatório das predisposições individuais.
O que não invalida que, apesar do forte esforço de todo este reforço, na força das palavras a democracia continue esforçada, desforçada e forçosamente “liberal”.