“Não se deve, porém, considerar a busca da justiça social um tema separado e sucessivo à produção de riqueza, como se a economia devesse simplesmente criar valor e a política interviesse, só posteriormente, para o distribuir. Pelo contrário, a justiça diz respeito a todas as fases da atividade económica, desde a obtenção de recursos até ao financiamento, desde a produção ao consumo, tendo cada escolha consequências morais.” (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).
Não creio ser necessário um desmedido esforço de observação para reconhecer como a “estrutura social” das nossas sociedades tem vindo a estar “progressivamente afetada como que por um vírus silencioso” (Magnifica Humanitas). Pelo que a menor curiosidade investigativa não pode deixar de se debruçar sobre os obstáculos a esta constatação e a que tal se eleja como objeto de investigação.
E é aqui que a opção entre “o trabalho conjunto” que caracteriza o “caminho de Neemias” ou a “síndrome de Babel”, pela “idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única” (Leão XIV), pode ganhar relevo.
Nem tanto pela reivindicação de “modernidade” de que, em geral, se traveste a disputa política, mas pelo que ela represente de elaborada reconstrução do passado no que este nos oferece de disponível demonstração. Sobretudo se o “moderno” não passar de uma grotesca aspiração à “uniformidade” e à “linguagem única”, ainda que com cambiantes que se não fiquem pela TINA (There is no alternative) de Margareth Tatcher. Como se a negação de alternativas, ou o seu predisposto confinamento às que já falharam, nos dispensasse de superar qualquer “vírus”, por mais silencioso ou hegemónico que ele se tenha.
É que a “modernidade” também pode falar-nos de quanto nada se aprendeu.
Não consta que os “especuladores aventureiros e sem escrúpulos” de que falava Max Weber (1905), se tenham subsumido no seu “tipo ideal” de “ética protestante”, sempre que esta veio regular, legitimar e expandir as práticas do mercado. Nem o que lhes terá acontecido quando a mesma se desvaneceu. Ou se eles próprios se não acobertam na corrente amálgama do que Ferdinand Braudel bem distinguiu: a utilização do dinheiro para a troca de bens ou para sua exclusiva (auto)reprodução.
E se esta última se não converteu num discreto “vírus silencioso”, e suas “consequências morais”, sob a égide daquela “economia duvidosa” que é a das “ideias simplistas do escorrimento”.
Ou seja, as de que basta criar riqueza para que esta, generosamente, nos venha procurar. O que, para além de conveniente, atraente e “excelente slogan político”, já provou ser um ‘enviesado’ fator de distribuição. Não existindo, desde logo, qualquer “relação entre as taxas marginais de imposto e o ritmo do crescimento económico”, como os últimos setenta anos, nos E.U.A., vieram demonstrar (Martin Wolf, 2023, pp. 207).