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Crónica: debita nostra CCXCVI

Luís Costa - 01/10/2026 - 9:01

… “a família é um bem social frágil, sentindo de forma imediata as transformações económicas e tecnológicas que estão a alterar o mundo do trabalho (…). É conhecido o impacto devastador do desemprego e da precariedade no tecido familiar. A curto prazo, pode parecer vantajoso reduzir os custos laborais ou maximizar a eficiência financeira, mas a longo prazo isso mina as próprias bases da convivência” … (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).
A questão do “realismo autêntico que não renuncia a mudar o mundo” (Magnifica Humanitas) não é nova, na história do cristianismo, e creio mesmo que é a que subjaz à grave cisão que nele veio separar a ‘opção’ entre a “salvação pela fé” ou “pelas obras”.
Matéria em que esta encíclica é inequívoca. Desde logo, ao lembrar Francisco no apelo a que não “releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com as instituições da sociedade civil” …
E é aqui que, me parece, qualquer “conhecido impacto devastador” sobre o “tecido familiar”, sobretudo se persistente, há de merecer a denúncia de quem nele busque mais do que uma etiqueta para vistosos argumentos políticos.
Ora, já pela Revolução Industrial, e suas “proles”, “a família cujo trabalho é mal pago só subsiste com os seus ganhos contanto que o marido e a mulher se portem bem, estejam empregados durante todo o ano, não tenham vícios e não suportem outro encargo senão o de duas crianças de tenra idade. Surgindo uma terceira criança, um desemprego, uma doença, a falta de economia, hábitos ou unicamente uma ocasião fortuita de intemperança, esta família encontra-se no maior dos tormentos, numa miséria terrível: é preciso vir em seu socorro” (Louis-Réné de Villermé, 1839, pp.34).
E até um liberal, como Villermé, poderia admitir que tal “socorro”, para ser eficaz, não deve ignorar a raiz do problema, na sua redundância. Ou mesmo como, “a longo prazo”, ela se presta “minar as bases da convivência”, a que a “estrutura social” seja “progressivamente afetada como que por um vírus silencioso” (Magnifica Humanitas).
Estaremos, então, perante fatores estruturais que se não compadecem, antes disfarçam, com ‘mezinhas’ que aqui só encontram um afloramento de más-vontades, graças ao caldo ideológico que fez das nossas sociedades um avulso somatório de indivíduos. Iludindo que a “soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade” e omitindo “o valor peculiar do bem comum”.
Não consta que, à altura, a maximização da “eficiência financeira” já tivesse o fulgor que lhe veio a conseguir a “Escola de Chicago”, nos nossos anos 80 (Fred Block, 2018, pp. 22-23). Mas é possível garantir que certos expedientes para “reduzir os custos laborais” já são mais antigos do que a Sé de Braga.

 

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