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Crónica: Debita nostra CCXI

Luís Costa - 07/06/2023 - 9:35

Para restabelecer a ordem e a previsibilidade no mundo, precisamos de recuperar aquilo de que a era neoliberal o despojou: o ser humano tridimensional com uma crença na contenção, na bondade, nas obrigações mútuas e na democracia; um exército de indivíduos capazes de pensar de forma independente e que querem dizer aquilo que dizem.” (Paul Mason, “Um futuro livre e radioso”, 2019, pp. 36).
O clássico texto de Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1909), ao destacar o papel do protestantismo na regulação, legitimação e expansão do moderno capitalismo, conserva, em minha opinião, um triplo interesse.
Por um lado, o de nos interrogar sobre se tal fenómeno postergou de vez o “velho espírito aventureiro que se ria das limitações da ética” que, em tese, tinha vindo suplantar. Depois, como questiona o próprio Weber, o de saber se, mesmo assim, esse “espírito” não ressuscitou, adquirindo “um poder crescente e depois irresistível, sobre os homens, como nunca antes acontecera na História”. E, por fim, o de sugerir que aquele mesmo efeito legitimador se não circunscreveu ao apertado círculo da “influência” protestante, tendo favorecido a aceitação da própria praxis que se supôs reverter.
É que vivemos tempos conturbados em que esta indefinição de fronteiras facilmente se acolhe, se é que se não cultiva. E em que a (epistémica) indistinção entre neoliberalismo e liberalismo, ainda que mantida pelos mais devotos (Debita Nostra CCVII), frequentemente se evita, para tolerar aqui o que em larga escala nos perturba. Por vezes com tão impermeável convencimento que nele pode resvalar toda a tradição moral e qualquer dos critérios com que o autoritarismo “politicamente-correto” se apura (Debita Nostra CCX).
Vulgarmente invocando o estrondoso fracasso de certas utopias sociais, como se ele nos desobrigasse da busca de alternativas à atual (des)ordem económica mundial, e aproveitando-se da sua ‘puição’ verbal para um discreto, mas eficaz, policiamento da linguagem. De tal modo, que este título de Weber facilmente integraria um ‘índex’ virtual, apesar do seu propósito de contraposição às teses marxistas.
Questão que não é meramente nominal, já que representa um efetivo estreitamento do (objeto) analisável. Assim descartando o ineditismo da presente concentração do rendimento e o seu efeito sobre as nossas democracias, como a geracional perda de qualidade-de-vida e o afunilamento das opções (económicas) eleitorais. O que as mina na sua essência e as acrescenta nos formalismos em que facilmente pululam a mediocridade e o oportunismo.
É certo que, numa perspetiva filosófica materialista, são os interesses que nos movem (e não a “bondade”). Deste modo sugerindo que desvendemos as contradições em que nos (a)fundamos, mesmo sem esquecer os momentos em que também nos (co)movemos pela “contenção” e “obrigações mútuas”.
Pena é que eles apenas emirjam já depois de a ambição nos ter levado a bater no fundo!
               

Luís Costa

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